Fayez Rosek

Pelo rigor na fiscalização do vinho

Em 2001, durante a IX Avaliação Nacional de Vinho, Fayez Rosek recebeu o Troféu Vitis pelos mais de 30 anos que trabalhou como responsável pelo Laboratório de Enologia da Secretaria da Agricultura, em Bento Gonçalves. Um ano antes, tinha sido agraciado com o título de Amigo da Embrapa Uva e Vinho, pelo então Ministro da Agricultura, Pratini de Moraes. Fayez era um cidadão incansável pela busca da qualidade da produção vitivinícola rio-grandense. “O rigor com que exerceu suas funções foi característica marcante durante o tempo que permaneceu à frente daquele organismo. O seu estilo foi preponderantemente de conselheiro e orientador técnico, mais do que de controlador e fiscal impositivo”, escreveram Rinaldo Dal Pizzol e Sérgio Inglez de Sousa, no livro Memórias do Vinho Gaúcho.

Para o filho Paulo Rosek foi uma pessoa extremamente dedicada em tudo o que fez na vida. “Profissional como poucos, tinha um grau de honestidade e lisura sem igual. Era decidido e até um tanto rigoroso em seu trabalho”. Com ascendência síria, Fayez nasceu em 11 de janeiro de 1927, na cidade de Cachoeira do Sul. Era filho de Paulo Antônio e Alice Dip Rosek. Em Porto Alegre, estudou engenharia agrônoma na Faculdade de Agronomia da Universidade Federal.

Após, cursou doutorado em Enologia, na França. Aos 25 anos, a convite do amigo e diretor do Serviço de Vinho da Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul, João Giugliani Filho, foi morar em Bento Gonçalves. Em 1952, estava estabelecido na cidade e, por vezes, teve dificuldades em compreender o idioma talian dos moradores. Porém, com o passar dos anos tornou-se uma figura querida e bastante conhecida no meio da uva e do vinho, assimilando os hábitos e os costumes da região.

Fayez recebe Troféu Vitis da ABE. Na foto ele está ao lado de Cléber Andrade.

Fayez recebe Troféu Vitis da ABE. Na foto ele está ao lado de Cléber Andrade.

Logo que chegou, em 1952, atuou na área de fomento vitivinícola, na antiga Estação de Enologia de Bento Gonçalves, atual Embrapa – Uva e Vinho. Em seguida, passou a trabalhar no atendimento dos produtores numa área que se estendia de Bento Gonçalves a Erechim. Ficou nessa função até 1954, quando largou o cargo para assumir a chefia do Laboratório de Enologia da Secretaria da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul, onde permaneceu até 1990, quando se aposentou. Sua atuação foi marcada pela constante dedicação pessoal e pelo irredutível rigor no cumprimento do papel da instituição.

Realizava fiscalização para evitar as fraudes e pela busca de uma produção centralizada. Como ele mesmo declarou em entrevistas aos jornais Pioneiro e Correio Riograndense: “sempre fui muito severo na minha atividade, especialmente na área da fiscalização. Até mesmo o ingresso de álcool na região era fiscalizado: os caminhões precisavam parar diante do laboratório”.

Essas atitudes, muitas vezes, enfrentaram a agitação dos agricultores e dos sindicatos. Segundo noticiou o jornal Pioneiro, em janeiro de 1987, “produtores de uva de Bento Gonçalves estão revoltados com a atitude do chefe do Laboratório de Enologia do município, responsável pela pesquisa glucométrica, Fayez Rosek, que tentou impedir a negociação da safra em Monte Belo pelo valor de graduação de 20°. Para os viticultores, a fiscalização, quanto ao grau glucométrico, deve ser feita nas indústrias e não na hora da compra do produto”.

Entretanto, o rigor na fiscalização de Fayez fez com que a vitivinicultura gaúcha alcançasse avanços técnicos importantes para a época. Foi ele o introdutor da cromatografia sobre papel e do uso da lâmpada ultravioleta para inspeção de vinho. Durante a sua permanência como chefe do laboratório, a indústria vinícola rio-grandense deu um salto de qualidade. “Quando deixei a chefia do Laboratório, a qualidade do vinho elaborado no RS já era notável, pela tecnologia empregada na indústria e pela melhora da matéria-prima. Nos vinhos finos e espumantes, a vitivinicultura brasileira evoluiu muito. Nos vinhos comuns falta alguma coisa. Venho dizendo isso há muito tempo. Acredito que a nossa uva comum, a Isabel, cortada com variedades viníferas, possa agradar muito mais ao consumidor do que muito vinho importado. O argumento de que ela tem um pequeno foxy não é verdadeiro. Prova está no nosso suco de uva Isabel, que tem grande aceitação no mercado interno e externo”, disse no livro Memórias do Vinho Gaúcho.

Em 4 de novembro de 1981, o jornal Correio Riograndense escreveu que “o Laboratório de Enologia vem realizando um amplo trabalho de fiscalização”. O chefe Rosek falou na época “se não existisse esse controle, provavelmente, o Estado não teria atingido o estágio de desenvolvimento atual. Tal situação se comprova a partir do momento que saímos do Estado e notamos que diferentes pessoas, de paladar apurado, procuram somente uma coisa no vinho: o engarrafamento no Rio Grande do Sul. Com isso, pode-se afirmar que a unidade de enologia teve uma participação expressiva na vitivinicultura do Estado”.

Trabalhos

Além de suas funções profissionais, foi um gestor setorial da vitivinicultura, prevendo cenários e perspectivas. Concomitantemente aos trabalhos do Laboratório de Enologia realizou diversas funções. Entre os anos de 1958 a 1959, foi bolsista do Capes na Faculdade de Ciências de Dijon, na França, posteriormente realizando um período de estágio na Escola Nacional de Agronomia de Montepellier. Lá, foi aluno de mestres como Négri, Cordonnier e Pierre Gallet. Na volta ao Brasil, trouxe na bagagem porta-enxertos das castas Cabernet Franc e Aligoté. As mudas foram entregues ao amigo Atílio Dal Pizzol, dos quais surgiram uvas e vinhedos pioneiros.

Foi ainda coordenador técnico da delegação brasileira na mesa–redonda de Montevidéu, em 1960, que debateu critérios e princípios instituídos pela zona de livre comércio para a América Latina. Trabalhou como coordenador técnico da delegação brasileira na 1ª Conferência Latino-Americana de Uva e Vinho, realizada em 1962, em Caxias do Sul. Participou também das conferências realizadas na Argentina, no Chile e no México, nos anos seguintes. Assessorou a Comissão Especial de Vitivinicultura da Assembleia Legislativa do RS entre os anos de 1967 a 1968.

Esteve, como convidado especial, do 1° Simpósio Latino-Americano da Uva e do Vinho, realizado em Mendonza, na Argentina, em 1970; e do 13° Congresso  internacional da Uva e do Vinho, também em Mendoza, em 1971. Nesse mesmo ano, a convite da Junta Nacional do Vinho de Portugal fez um estágio nas principais regiões vitivinícolas portuguesas, que o impressionaram bastante e o fizeram proferir a seguinte frase, segundo o livro Memórias do Vinho Gaúcho: “foi uma agradável surpresa o contato com a qualidade técnica e a organização do sistema vitivinícola português”.

Exerceu a função de coordenador técnico do Centro de Pesquisas da Organização Latino-Americana da Uva e do Vinho. Participou, entre 1968 a 1972, como representante do governo do Estado, dos encontros e reuniões referentes à elaboração do anteprojeto do Código Brasileiro de Bebidas, assim como, em 1972/73, da redação dos padrões dos vinhos e aguardentes. Coordenou a delegação brasileira nas Conferências de Montevidéu, em 1972, e Caxias do Sul, em 1975. Foi palestrante no 1°Seminário Sul-brasileiro de Vitivinicultura, em Videiras (SC), em 1977.

Entre os trabalhos técnicos, redigiu as teses Causas determinantes da chaptalização de mosto no Brasil; Estudo da vitivinicultura rio-grandense e seus problemas; Panorama da vitivinicultura brasileira e foi co-autor do livro A arte de beber vinho – 51 perguntas e respostas sobre vitivinicultura. Nas horas vagas, gostava de viajar e ir para praia em Balneário Camboriú (SC). Também costumava assistir aos programas esportivos na televisão, principalmente futebol e fórmula 1, e ver corridas de cavalo quando estava fora do país.

Casou-se com Elisabeth Salton, com quem teve os fi lhos Airton, Ricardo e Paulo e quatro netas. Faleceu em 19 de janeiro de 2005, vítima de um infarto. “Educado, exemplo de profissional e de honestidade, deixou um legado a ser seguido pela família. Na prática, nunca teve grandes sonhos, gostava de viver bem o dia a dia e procurou dar e ensinar tudo o que pode aos fi lhos e netos”, afirma o filho Paulo.

Fontes: Filho Paulo Rosek/ Livro Memórias do Vinho Gaúcho, de Rinaldo Dal Pizzol e Sergio Inglez de Sousa/ Jornais Pioneiro e Correio Riograndense

Danúbia Otobelli / Especial