Citricultores projetam safra de qualidade

Rio Grande do Sul deve colher mais de 433 mil toneladas de frutas cítricas em 2017.

Rio Grande do Sul deve colher mais de 433 mil toneladas de frutas cítricas em 2017.

Mais de 430 mil toneladas de frutas cítricas como laranjas, bergamotas e limões devem ser colhidas no Rio Grande do Sul na safra 2017

É na localidade de Morro Peixoto, no município de Harmonia, localizado no Vale do Caí, principal região do Estado quando se fala em citricultura, que a família do produtor Fábio Kunrath, 33 anos, colhe desde março as primeiras frutas da safra deste ano. Juntamente com os pais, Ana e Marcos e com o irmão Lucas, o agricultor cultiva 13 hectares de frutas cítricas, somando cerca de sete cultivares de bergamotas, laranjas e limões. Embora a área esteja com uma produção baixa devido à renovação de pomares, cerca de 220 mil quilos serão colhidos até meados de novembro. Na cidade de Harmonia, 70% do valor adicionado somado na economia local vem da agricultura.

Família Kunrath, produtora de citros na cidade de Harmonia, no Vale do Caí.

Família Kunrath, produtora de citros na cidade de Harmonia, no Vale do Caí.

A produção da família Kunrath soma-se a do Estado que, neste ano, deve alcançar mais de 430 mil toneladas – 274 mil toneladas de laranjas; 150 mil toneladas de bergamotas e 9 mil toneladas de limões. As projeções são positivas, as chuvas regulares e bem distribuídas têm permitido excelente desenvolvimento das frutas, desde a época da floração, no mês de agosto, até a fase atual, de crescimento. A maioria das bergamotas e laranjas será colhida a partir de maio, conforme seu período de maturação (de ciclo precoce, médio ou tardio), sendo que a colheita se estende normalmente até dezembro. Entre as bergamoteiras, a sequência de maturação das principais cultivares começa com a Satsuma e segue com Ponkan, Caí, Pareci, Montenegrina e Murcott.

Segundo o engenheiro agrônomo Derli Paulo Bonine, assistente técnico na área de fruticultura do Escritório Regional da Emater de Lajeado, e integrante da coordenação da Câmara de Citricultura do Vale do Caí, as perspectivas para esta safra estão muito boas. “As primeiras cultivares a ser colhidas são as do grupo das Satsumas, que é a mais precoce das frutas cítricas cultivadas na região. A bergamota Satsuma é de origem japonesa. É uma fruta sem acidez e sem sementes. Sua casca não libera o cheiro característico das bergamotas quando a fruta é descascada. Sua colheita, neste momento, já atinge 60% das frutas nas plantas. Nas outras cultivares, temos a safra pela frente e as condições climáticas foram muito boas para a citricultura”, avalia o agrônomo.

As melhores frutas do Brasil

As condições climáticas positivas desde o início do ciclo da citricultura continuam boas no desenvolvimento das frutas, deixando os produtores otimistas e garantindo a permanência da fama do Rio Grande do Sul – produzir as melhores frutas cítricas do Brasil. “Temos dias com temperaturas amenas e noites mais frias. Isso confere uma cor muito boa ao suco e à casca das frutas cítricas, um alaranjado intenso que só conseguimos no Brasil. Se o clima continuar assim, será uma safra de destaque”, aposta Bonine. As chuvas regulares e bem distribuídas estão favorecendo diretamente no desenvolvimento do tamanho das frutas, o que é muito positivo já que o consumidor tem preferência pelas frutas graúdas e bonitas.

Quanto ao preço das bergamotas, Bonine garante que, por enquanto, estão condizentes com uma boa remuneração do produtor. “No restante da safra ainda não sei como será o comportamento do mercado, esperamos preços que remunerem a boa qualidade das frutas deste ano. A fruta gaúcha se destina prioritariamente para o consumo de mesa, uma pequena parte da produção é industrializada. Com isso o produtor consegue uma boa remuneração”, destaca. Nas frutas precoces, os valores giram em torno de R$ 0,50 ao quilo. Na medida em que vão chegando as frutas tardias, o preço sobe e o produtor recebe valores em torno de R$ 1,00 ao quilo. “Isso acontece porque não temos concorrência do restante do país neste período mais tardio e nossa fruta valoriza”.

O preço médio recebido pelos citricultores pela Satsuma está em R$ 17 por caixa de 25 quilos. Houve significativa queda de preço em relação ao recebido pelos citricultores na segunda quinzena de março, que estava em R$ 21,50. Esta redução do preço se deve à grande oferta desta variedade, já que a fruta está completamente madura; como ela tem pequena persistência na planta quando madura, os citricultores são obrigados a colhê-la e comercializá-la logo em seguida.

Produção será ampliada

O agricultor Fábio Kunrath está satisfeito com a qualidade que vem se desenhando na safra deste ano. A área plantada na localidade de Morro Peixoto, no município de Harmonia, tem 13 hectares que, em breve, serão ampliados. “Dentro dos próximos 10 anos pretendemos triplicar nossa produção. Os pomares já estão sendo implantados, bem como áreas em que estamos renovando as plantas. Existe uma demanda no mercado e investimos em qualidade, embora muitas vezes ela não seja reconhecida através dos preços”, lamenta o agricultor. A questão do preço é uma preocupação para a família, que esperava receber mais neste início de safra.

Há mais de 50 anos a família Kunrath trabalha com a citricultura. A produção é vendida para os chamados atravessadores, que revendem a produção na Ceasa e em mercados. “A safra deste ano está muito boa, tem qualidade e estamos otimistas com a aceitação no mercado”, destaca Kunrath. Serão cerca de 220 mil quilos colhidos distribuídos em sete cultivares de frutas cítricas. Além da citricultura, a família tem aviário e criação de bovinos para engorda.

O raleio nas plantas

A atual fase de trabalho nas bergamoteiras é o raleio, período que demanda muita mão de obra. O agrônomo Derli Paulo Bonine explica que as variedades cítricas de maneira geral produzem muitas flores e, dependendo da cultivar, somente uma pequena porcentagem tem pegamento, podendo ser inferior a 0,2%. Entretanto, esse baixo vingamento raramente é limitante à produção, tendo em vista o elevado número de flores produzido pela maioria das cultivares, que pode ser de 100 mil a 200 mil por planta adulta. “Mesmo com toda essa queda natural, a produção de frutos ainda é muito intensa, como é o caso das variedades de bergamotas cultivadas comercialmente no país. As cultivares Montenegrina, Caí e Pareci apresentam alternância de produção, isto é, produzem muito em um ano e pouco no ano seguinte. Assim sendo, os frutos produzidos, no ano com excesso de produção, são de tamanho pequeno, portanto com menor valor comercial para os padrões nacionais”, destaca.

Dessa maneira, os frutos ficam de tamanho pequeno e, em alguns casos, as plantas sofrem um processo de estresse que pode levá-las à morte. “Este excesso de frutas, se não retiradas, tem duas consequências: a primeira, formação de frutas de tamanho reduzido, com menor valor comercial; e a segunda: a alternância de produção, que é uma grande produção em um ano e pequena na safra seguinte”, complementa. Para evitar estes problemas, os citricultores realizam o raleio, que é a retirada das frutas pequenas, com média de três centímetros. Esta retirada pode ser de até 80%, dependendo da planta e da safra.

O citros no Estado

Também na Serra Gaúcha inicia a colheita das variedades superprecoces, como a laranja do Céu e as bergamotas Satsuma Okitsu e Ponkan, cultivadas nos vales dos rios. Embora a contribuição das condições climáticas com dias de alta insolação, semanas sem precipitações e noites bastante frias para o período, essas frutas se apresentam ainda um tanto verdolengas e de sabor razoável. A colheita precipitada, com frutas parcialmente maduras, é prática rotineira, visando auferir maiores cotações, haja vista a novidade exposta nas gôndolas, situação sempre desejada pelo consumidor. Essas características do clima também em muito vêm favorecendo a manutenção da sanidade das frutas e plantas cítricas. Em alguns locais, a secura já começa a preocupar, principalmente nos lugares mais quentes, como os vales de rios e nas encostas, nas quais em muitas há pouca profundidade do solo, exaurindo mais rapidamente o teor de umidade armazenado. Últimos pomares de variedades tardias, como a Montenegrina, estão sendo submetidos à prática do raleio de frutas, visando maior calibre, qualidade e valorações das frutas futuramente colhidas. Preços médios junto às propriedades: laranja Céu R$ 1,50/kg; bergamota 15 de março: R$ 0,75/kg; Satsuma: R$ 0,75.

Na região Norte, onde aos poucos vem crescendo o cultivo de pomares de citros, começa a entrar no mercado as varietais de laranjas Navelina, comercializadas a R$ 1,10/kg, e a laranja do Céu, sem acidez, a R$ 1,00/kg. Há um indicativo de aumento na área com laranjas, conforme informam viveiristas da região em função da quantidade de mudas vendidas, com aumento de 81 hectares, ainda com predomínio da variedade Valência. Entre as bergamotas, está sendo finalizada a colheita da varietal Satsuma Okitsu, com preço médio de R$ 2,00/kg. Inicia a mudança de cor da varietal Clemenules.