Cresce o consumo de amora-preta

Fruta é utilizada para a elaboração de alimentos funcionais, o que vem agradando produtores gaúchos

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Na safra 2016/2017, os produtores receberam entre R$ 2,20 a R$ 2,40 ao quilo da amora Fotos:Eduardo Pagot/Emater/Divulgação

 

Por: Camila Baggio – camila@avindima.com.br

Uma frutinha deliciosa, nem todo mundo sabe os benefícios que a amora pode trazer. Assim como outras frutas vermelhas, é considerada um alimento funcional – aqueles que, além de satisfazerem as necessidades nutricionais básicas, desempenham efeitos fisiológicos benéficos à saúde. Rica em Vitamina C, por exemplo, a amora é uma grande aliada no combate a infecções, pois neutraliza toxinas bacterianas e auxilia a fortalecer o sistema imunológico. Tantos atributos vêm fazendo o consumo da amora aumentar, especialmente da amora-preta, preferida por causa de seu sabor mais doce. Com isso, a demanda para produtores vem aumentando e o Jornal A Vindima, com o auxílio do engenheiro agrônomo Eduardo Pagot, da Emater/RS-Ascar de Monte Alegre dos Campos, elencou algumas dicas para produtores que querem melhorar a produção e também para aqueles que desejam investir em uma cultura nova.
De acordo com o agrônomo, o mercado e comercialização da amora-preta, principalmente da fruta fresca, vendida in natura, vem avançando de forma tímida, mas cresce continuamente. “As perspectivas atuais são de crescimento, mas isso depende de apurada logística e um marketing sobre todos os benefícios da fruta”, sugere Pagot, que complementa que o principal mercado da amora-preta está no Sudeste do Brasil e nos grandes centros urbanos. “Um dos principais apelos é o da nutracêutica, que se utiliza de substâncias bioativas naturais concentradas, aquelas presentes nos alimentos, para criar comprimidos ou cápsulas, por exemplo”, acrescenta.
Já na indústria, o crescimento na demanda da amora-preta é grande nos últimos anos. “Os preços chegaram a cair, o que causou dificuldades na comercialização. A atual tendência é de estabilização na área, qualificação e recuperação de preços”, adianta o agrônomo. Na safra 2016/2017, os produtores receberam entre R$ 2,20 a R$ 2,40 ao quilo da amora. “Existe uma necessidade de organização dos produtores para uma maior divulgação da fruta. Nas indústrias, o principal mercado é para processamento de frutas, mas a fatia de alimentos funcionais segue sendo um alvo, assim como a nutracêutica”, acredita Pagot.
Confira a seguir algumas orientações disponibilizadas pelo agrônomo Eduardo Pagot, desde a preparação do solo até o período de pós-colheita. Mais informações podem ser obtidas pelo email epagot@emater.tche.br ou na Emater de Monte Alegre dos Campos pelo telefone (54) 3612.1002.

Recomendações de cultivo

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O solo: Os solos mais apropriados para a cultura são aqueles bem drenados, com boa capacidade de retenção de água e bom teor de matéria orgânica. Em geral, os solos ligeiramente ácidos, com um pH em torno de 5,5 a 6,0, são os melhores para a amora-preta. No preparo do solo, recomenda-se a subsolagem total da área, com gradagem e incorporação de calcário e fertilizante a 30 cm de profundidade, com o objetivo de corrigir a acidez e a fertilidade do solo (adubação pré-plantio). As quantidades dos insumos devem ser definidas de acordo com a análise de solo. Em áreas não mecanizadas e pedregosas, pode-se fazer o preparo somente das covas, desde que essas sejam bem preparadas e adubadas, para proporcionar o desenvolvimento inicial adequado das raízes.

Plantio das mudas: Para o plantio das mudas, o agricultor deve observar os seguintes aspectos: a) o plantio deverá seguir um alinhamento e marcação de acordo com o espaçamento previamente planejado; b) o plantio deve ser executado em condições de solo com boa umidade, de preferência após precipitações pluviométricas. É fundamental a irrigação das mudas logo após o plantio, pois se eliminam as bolsas de ar que ficam ao redor das raízes e aumenta-se o contato das mesmas com o solo, reduzindo os riscos de desidratação; c) as mudas devem permanecer à sombra com irrigação frequente até serem transplantadas; d) a época mais adequada para o plantio é no final do inverno e início da primavera, podendo se estender até o início do verão, nesse caso, desde que irrigadas com frequência; e) as mudas de torrão (tubetes ou sacos plásticos) apresentam melhor índice de pagamento em condições adversas; f) as mudas de estacas enraizadas ou de brotações de raiz nua devem ser plantadas, preferencialmente, de março/abril até o mês de setembro.

Sobre o plantio: As principais épocas de plantio são outono/primavera para mudas de torrão; e inverno para raiz nua. O espaçamento recomendado varia de 3 m a 7 m entre plantas e de 2,5 m a 3 m entre as linhas de plantio, totalizando uma densidade de 6,6 mil plantas por hectare. O espaçamento de 5 m entre mudas proporciona uma colheita significativa já na primeira safra. A distância entre linhas de 3 m propicia um espaço adequado para os tratos culturais mecanizados e, ao mesmo tempo, uma boa insolação e circulação de ar no cultivo. As principais cultivares de amora são Tupi – mais indicada para a venda de consumo in natura, e que tem potencial produtivo de, em média, 10 mil kg/ha; Caigangue; Guarani; Cheroki – mais indicada para destinação para a indústria; Looch Ness; e Chester – esta última sem espinhos e mais tardia.
Para a implementação de um hectare de amora-preta, o custo estimado é de em torno de R$ 11 mil, somando mão de obra e insumos.

A condução das plantas: O sistema de condução mais utilizado para a amoreira é em forma de ‘T’, onde são implantados palanques (eucalipto tratado) na linha de plantio a cada 8 m a 10 m de distância, com dimensões de 15 cm (diâmetro) por 1,80 m (altura). Nas cabeceiras das linhas, normalmente são utilizados palanques com 1,60 m de altura e 15 cm de diâmetro, colocados em posição inclinada. As travessas que formarão o ‘T’ são fixadas em uma altura de 1 m a 1,20 m do solo, por onde passam dois arames paralelos de 40 cm a 50 cm distantes um do outro. Quando as brotações das plantas, emitidas junto ao solo, ultrapassarem os arames, devem ser amarradas. Esse tutoramento é fundamental para evitar danos pelo vento e facilitar a colheita das frutas.

Condução inicial – poda: No primeiro ano, as hastes que brotam da coroa das plantas (das mudas) devem ser raleadas, deixando apenas quatro hastes por planta, considerada uma boa densidade para a primeira produção. No outono ou inverno, essas hastes são tutoradas nos arames e despontadas a 20 cm acima do mesmo. Na primavera seguinte, essas hastes florescem e produzem a primeira colheita, que ocorre de novembro a janeiro. Ainda na primavera, emergem do solo novas hastes que crescem ultrapassando os arames de sustentação e, então, devem ser despontadas (poda de verão) a 30 cm acima do arame, com o objetivo de forçar a emissão de ramos laterais, que produzirão no próximo ano. Logo após a colheita, as quatro primeiras hastes devem ser podadas ao nível do solo e retiradas do pomar, deixando espaço para as hastes novas despontadas se desenvolverem até o final do verão, início do outono. A poda de inverno é realizada, encurtando todos os galhos laterais a 30-40 cm, com o objetivo de organizar o espaço na linha e distribuir melhor a frutificação. Junto com essa poda de inverno, realiza-se uma seleção das hastes mais vigorosas, eliminando-se o excesso. O recomendado é deixar, no máximo, três hastes produtivas por metro linear.

Controle de pragas e doenças: Um grande número de pragas e doenças pode atacar a cultura da amora-preta. No caso das doenças, a estratégia de controle deve abranger práticas integradas, associando métodos culturais, físicos, biológicos e a proteção química das plantas com fungicidas. A intensidade de uso de um ou outro método depende do sistema de produção (convencional, orgânico ou integrado) adotado pelo produtor. As recomendações de controle das principais pragas e doenças enfatizam o uso de mudas sadias e a profilaxia, que visam a redução das fontes de inóculo e de sua evolução dentro da área de produção. Junto a estas práticas, são acrescentadas a adubação equilibrada, a condução aberta das plantas, a manutenção da cobertura verde baixa e cobertura plástica dos cultivos, e o controle químico com produtos cúpricos, enxofre e calda sulfocálcica. As principais doenças e pragas da amoreira-preta no Sul do Brasil são botrytis ou mofo cinzento, antracnose do fruto, cancro dos ramos, ferrugem, galha da coroa, broca-da-amora, mosca das frutas, entre outras.

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Colheita: A amora-preta é uma fruta muito delicada, que deve ser colhida com cuidado. O ponto de colheita se dá dois dias após a mudança da cor vermelha pra preta. O ideal é efetuar a colheita a cada dois dias, no máximo. Quanto maior a frequência de colheita, maior a qualidade da fruta colhida.

Pós-colheita: Deve-se evitar a exposição solar e o contato com altas temperaturas dos frutos após a colheita. É fundamental a construção de abrigos próximos ao pomar, e também é importante que as caixas sejam cobertas com panos ou sombrites para evitar a entrada de insetos. Para o mercado in natura, a fruta deve ser colhida nas horas mais frescas, resfriada rapidamente a uma temperatura de 1ºC a 2ºC e mantida até seu destino. As caixas com amoras devem ser depositadas sobre estrados de madeira (não diretamente no chão) e o transporte até o mercado tem que ser protegido e preferencialmente refrigerado.