Número de famílias que cultivam uva orgânica cresce na Serra Gaúcha

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Na região crescimento passa dos 300%. Sistema de produção auxilia na manutenção da biodiversidade e na conservação da natureza

Há uma década o Rio Grande do Sul tinha 80 famílias que cultivavam uvas sem a utilização de agrotóxicos. Em 2017, esse número passou para 348 famílias, em 47 municípios. Esses agricultores produziram mais de 12 milhões de quilos de uva orgânica. Os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) e desenham uma tendência – a procura por alimentos mais saudáveis, tanto por consumidores, quanto por quem produz, nesse caso os agricultores. O mercado para os produtos orgânicos vem crescendo significativamente no Brasil. Entre os derivados da uva, a demanda por suco, incluindo o suco orgânico, é a que mais cresce.
Para muitos, entretanto, a produção de uva nos moldes tradicionais, com o uso intensivo de agrotóxicos e adubos químicos, não é mais uma opção técnica e economicamente viável. O cultivo de uvas americanas e híbridas para suco em sistemas orgânicos insere-se, nesse contexto, como alternativa para a diversificação da produção e aumento da renda. A fonte é a Federação Internacional de Agricultura Orgânica (IFOAM) e o Instituto de Investigação de Agricultura Orgânica (FiBL). As entidades estimam em 2,4 milhões de produtores orgânicos registrados em todo o mundo que cultivam uma área total de 50,9 milhões de hectares. Em 11 países, mais de 10% de terras agricultáveis são orgânicas. A 18ª Jornada da Viticultura Gaúcha, realizada em julho, em Bento Gonçalves, mostrou que essa realidade também existe na Serra Gaúcha.

Qual é o primeiro passo para iniciar no cultivo de uva orgânica?

A uva é o principal produto da Serra que tem cultivo orgânico, e muitos produtores têm dúvidas de como iniciar esse modo de trabalho que tem como resultado frutas mais bonitas, saborosas e saudáveis, além de auxiliar na manutenção da biodiversidade, na conservação da natureza e da saúde desses trabalhadores. Para o técnico do Centro Ecológico de Ipê, Leandro Venturin, o primeiro passo para o produtor que deseja iniciar um sistema de produção orgânica é buscar seu mercado. “Se ele está vinculado a uma cooperativa, ou vinícola, por exemplo, deve buscar o interesse desses empreendimentos na uva orgânica. Pois hoje esse mercado está muito atrelado à questão da indústria do suco de uva, atualmente mais de 95% está direcionada para a elaboração desse produto. Então, o primeiro passo é buscar a indústria que tenha esse interesse”, explica o técnico.
Encontrado o futuro comprador, o passo seguinte é buscar orientação e exemplos próximos, como o Centro Ecológico, o escritório da Emater da sua cidade, o programa Ater, do Ibravin, entre outras entidades que direcionam uma assistência técnica necessária e muito importante. “É preciso iniciar toda uma adaptação do vinhedo para a conversão do sistema convencional para o orgânico, e isso tem uma série de regras e critérios. As visitas técnicas são indispensáveis para que o produtor consiga dar conta disso. O que também acontece se ele inicia um novo vinhedo”, complementa Venturin. É a partir desse primeiro contato com os técnicos que se elabora o plano de conversão, que pode mudar de acordo com a certificadora escolhida pelo produtor – existem as certificadoras particulares ou as de sistema participativo, que envolvem entidades e outras redes de trabalho.
Com esse plano, o agricultor passa a ser cadastrado no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e inicia todo o processo de certificação. Esse caminho é fundamental, pois uma produção orgânica não poderá ser comercializada como tal sem a certificação, que conta com processo de controle, cadastro e fiscalização. A conversão do sistema convencional para o orgânico dura, no mínimo, 18 meses, e pode chegar a até cinco anos, dependendo da situação de cada produtor e também da certificadora escolhida. “Neste período, além do acompanhamento técnico no vinhedo, as entidades de assessoria oferecem atividades coletivas aos agricultores, como cursos e oficinas, que se tornam fundamentais no processo de qualificação que antecede a certificação”, complementa Venturin.
Em resumo, com o contato com a certificadora, o técnico inicia o acompanhamento na propriedade, faz o cadastramento do produtor, inicia o plano de manejo – onde se determina o tempo de conversão, o produtor então se vincula a um processo de certificação, cumprindo prazos e recebendo inspeções que determinam se ele está apto ou não para ser certificado. “Durante esse tempo de conversão, a produção é vendida como uva convencional. Na região, em média, esse período dura duas safras para variedades com risco de permanência de contaminação baixo, como a Bordô. Variedades com carga de defensivos maior tendem a ter um prazo mais estendido”, explica o técnico Leandro Venturin.

E o manejo, há diferenças entre o cultivo tradicional e o orgânico?

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Técnico do Centro Ecológico de Ipê, Leandro Venturin.

O solo e a fertilidade são as primeiras áreas que recebem atenção no início da conversão de um vinhedo convencional para um sistema orgânico. Os manejos tradicionais, como a poda, não sofre alterações, o que muda totalmente são os tratamentos fitossanitários e a adubação. “Aí muda tudo. Temos bem definidos os produtos autorizados na produção orgânica, que são à base de cobre, mas sempre com limite de uso. Para cada doença existem os tratamentos específicos”, determina o técnico Leandro Venturin. Herbicidas, por exemplo, não existem na cultura orgânica, é onde entra a cobertura verde.
Além disso, todo o ciclo da videira conta com normas a serem seguidas, com manejo adequado na colheita e o caderno de campo, com todos os registros da produção. “Costumo dizer que ser um produtor orgânico é uma opção, mas a partir disso os processos são compulsórios, sou obrigado a seguir certas regras, tenho que abrir a propriedade para inspeções anuais e que não se restringem à área de produção, mas também aos galpões e estruturas utilizadas com duplo propósito, porque onde ainda há produção convencional, não pode existir contaminação”, destaca. Esse contágio pode vir até das propriedades vizinhas, por isso é importante definir com atenção a área que será convertida.

Como está o mercado?

Já apontado pelos números crescentes, o mercado de orgânicos está aquecido e tem se tornado uma tendência não apenas na viticultura, mas em praticamente todas as culturas. “Na horticultura, por exemplo, é uma crescente enorme, pois a demanda dos produtos ocorre no consumo diário e estamos muito longe de dar conta da demanda do mercado. Temos muitos produtores de uva que hoje estão diversificando a propriedade porque enxergaram esse mercado excelente e com valor agregado muito interessante. As orientações nas diferentes culturas são praticamente as mesmas, apenas com algumas especificidades de cada cultura”, complementa o técnico Venturin.
Mas muito além do ganho de mercado e financeiro, uma rotina livre de agrotóxicos é benéfica não apenas para as plantas, mas especialmente para os produtores. “O que encontramos são agricultores que optam por ter produção orgânica e comercializar como convencional. Não estão interessados na diferenciação do preço, mas no fato de não terem contato com venenos. É claro que a uva orgânica é mais valorizada, mas muitos primam mais pelo estilo de vida e saúde. São ganhos pessoais que vão além dos financeiros. E claro, o mercado tem recebido e aumentado essa procura, a produção é amplamente absorvida e tem uma tendência a aumentar”, destaca Venturin.

Agricultor aposta no orgânico: “estou de olho no mercado”

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Rudinei Giotto está ampliando sua área de vinhedos orgânicos no interior de Flores da Cunha. Seu projeto futuro é ter uma propriedade totalmente orgânica.

“É muito difícil começar. Mas não tenho dúvidas que o cultivo orgânico é um futuro que prospecto para minha propriedade”. A opinião é do produtor Rudinei Antonio Giotto, 36 anos, que, no interior do município de Flores da Cunha já colhe uvas produzidas no método orgânico há sete anos – contando com o período de conversão e certificação são mais de 10 anos de mudanças na rotina e no modo de trabalho. Rudinei tem nas raízes da família a viticultura, mas percebeu que o trabalho poderia ser diferente, agregando na renda da família e, especialmente, na saúde. “Comecei a investir em produção orgânica pela ideologia e também por causa dos malefícios dos agrotóxicos. Muita gente me chamou e ainda chama de louco, mas acredito neste sistema e tenho planos futuros que envolvem, certamente, o orgânico. Podemos mudar as variedades de uvas, e até as culturas, mas não abrimos mais mão do nosso método de trabalho”, conta o jovem.
Ele teve o apoio do pai Grinto e da mãe Irene, além do auxílio da esposa Marisa, para começar a conversão dos vinhedos localizados na comunidade de Nova Roma. Começou aos poucos, com 0,3 hectare de parreirais na variedade Bordô. Com o passar dos anos, foi ampliando as áreas de forma controlada e conforme a disponibilidade da família. Hoje são quase 5 hectares nas uvas Bordô, Isabel e Niágara, que neste ano produziram mais de 76 mil quilos de uvas destinadas para a elaboração de suco em uma cooperativa a qual a família é associada. “Quando comecei, vi que a cooperativa tinha demanda para uvas orgânicas e, partir disso, nos associamos e começamos a conversão. Foram cerca de dois anos para a certificação”, conta Giotto.
A família mantém ainda um vinhedo da variedade Lorena, produzida de forma convencional, e outra área que já está em fase de replantio das vinhas e conversão para o orgânico. Tudo de olho no mercado crescente. “Estamos estudando uvas indicadas para o suco de uva, que é onde sabemos que há procura e dentro da demanda da cooperativa a qual integramos”, complementa. Giotto enfatiza que a uva orgânica tem um valor econômico agregado frente à convencional, mas valoriza ainda mais a qualidade de vida que é resultado do cultivo livre de agrotóxicos. “Vendemos nossa uva com um valor cerca de 60% maior do que as uvas produzidas da forma convencional, então sim, o orgânico é lucrativo, mas, sobretudo, a qualidade do trabalho, eliminando insumos químicos e entendendo melhor como funciona o solo, a planta, e o clima, torna a agricultura muito melhor. Não temos como comparar nossa qualidade de vida antes e depois do orgânico”, valoriza o produtor.
Giotti lembra que as exigências no início do processo são muitas, e elas se tornam permanentes. “O produtor que começar no orgânico deve ser persistente e comprometido. É preciso o envolvimento de toda a família e uma ideologia de buscar sempre todos os processos de forma correta, desde os manejos no campo até o caderno de campo, onde tudo deve ser registrado. Até porque, as certificadoras exigem essa qualidade, e elas estão certas”, complementa Giotti. Além das uvas, a família trabalha ainda com o plantio de alho, este na cidade de Ipê. Há algum tempo o produtor estuda e testa produtos diferentes na olerícola, buscando aproximar seu cultivo ao orgânico. “Antes mesmo de produzirmos de forma orgânica, já tínhamos alguns hábitos como a cobertura verde nos vinhedos, então nossa propriedade caminha em direção à diminuição do uso de agrotóxicos e essa é minha ideia de futuro. Não precisar mais ter contato com esses produtos e ganhar em qualidade de vida. Uma horta com culturas variadas também está nos nossos planos, de forma orgânica, é claro”, planeja o produtor.

Principais perguntas

O que são produtos orgânicos?
Pela legislação brasileira, considera-se produto orgânico, seja ele in natura ou processado, aquele que é obtido em um sistema orgânico de produção agropecuária ou oriundo de processo extrativista sustentável e não prejudicial ao ecossistema local. Para serem comercializados, os produtos orgânicos deverão ser certificados por organismos credenciados no Ministério da Agricultura, sendo dispensados da certificação somente aqueles produzidos por agricultores familiares que fazem parte de organizações de controle social cadastradas no Mapa, que comercializam exclusivamente em venda direta aos consumidores.

Sou produtor e quero me regularizar. Como faço?
A certificação pode ser obtida pela contração de uma certificadora por auditoria ou se ligando a um Sistema Participativo de Garantia (SPG), que deverá estar sob certificação de um Organismo Participativo de Avaliação da Qualidade Orgânica (OPAC).
No caso de contração da certificadora por auditoria, o produtor receberá visitas de inspeção inicial e periódicas e manterá obrigações perante o Mapa e a certificadora, com custo a ser estabelecido em contrato. Se o produtor descumprir as normas, a certificadora retira seu certificado e informa ao Mapa. Procure na lista de Entidades Regularizadas as Certificadoras por Auditoria já credenciadas pelo Ministério.
No caso da certificação por OPAC, o produtor deve participar ativamente do grupo ou núcleo a que estiver ligado, comparecendo a reuniões periódicas e o próprio grupo garante a qualidade orgânica de seus produtos, sendo que todos tomam conta de todos e respondem, juntos, se houver fraude ou qualquer irregularidade que não apontarem e corrigirem. Se o produtor não corrigir, o grupo deve excluí-lo, cancelar o certificado e informar ao Mapa.

Qual a diferença entre ter e não ter a certificação?
Quando o produtor se cadastrou apenas para venda direta sem certificação, não pode vender para terceiros, só na feira (ou direto ao consumidor) e para as compras do governo (merenda e CONAB). Quando o produto é certificado, pode vender seu produto em feiras, mas, também, para supermercados, lojas, restaurantes, hotéis, indústrias, internet, etc.

Como saber se o produto é orgânico mesmo?
Para vender na feirinha, o produtor sem certificação deve apresentar um documento chamado Declaração de Cadastro, que demonstra que ele está cadastrado junto ao Mapa e que faz parte de um grupo que se responsabiliza por ele. Neste caso, só o produtor, alguém de sua família ou de seu grupo pode estar na barraca, vendendo o produto. Essa Declaração deve ser mostrada sempre que o consumidor e a fiscalização pedirem.
Já os produtos vendidos em mercados, supermercados, lojas, devem estampar o selo federal do SisOrg em seus rótulos, sejam produtos nacionais ou estrangeiros. Se o produto for vendido a granel deve estar identificado corretamente, por meio de cartaz, etiqueta ou outro meio.
Os restaurantes, lanchonetes e hotéis que servem pratos orgânicos ou pratos com ingredientes orgânicos devem manter à disposição dos consumidores listas dos ingredientes orgânicos e dos fornecedores destes ingredientes.

Quais os produtos fitossanitários com uso aprovado?
A legislação brasileira da produção orgânica dá tratamento diferenciado aos insumos destinados à agricultura orgânica. Os agrotóxicos ou afins que tiverem em sua composição apenas produtos permitidos na legislação de orgânicos, recebem, após o devido registro, a denominação de ‘produtos fitossanitários com uso aprovado para a agricultura orgânica’. Por serem considerados produtos de baixo impacto ambiental e também de baixa toxicidade, a legislação foi idealizada no intuito de acelerar o seu registro sem deixar de lado a preocupação com a saúde, o meio ambiente e a eficiência agronômica.

Fonte: Emater.