Produção de morangos orgânicos cresce na Serra Gaúcha

IMG_4876

 

Hoje existem cerca 25 produtores cadastrados junto a Rede Ecovida de Agroecologia, que produzem até 40 mil toneladas da fruta por ano

Na Serra Gaúcha a produção de morangos orgânicos cresceu cerca de 300% nos últimos cinco anos, passando de 10 mil para 40 mil toneladas por ano. Hoje, existem cerca de 25 produtores cadastrados junto a Rede Ecovida de Certificação. Conforme o técnico do Centro Ecológico de Ipê, Leandro Venturin, as perspectivas para essa cultura são boas na região, em função do seu apelo comercial. “Acredito que podemos chegar às 100 toneladas nos próximos anos. Hoje, temos um mercado diferenciado, uma melhor aceitação pelo consumidor e uma boa tecnologia de produção, o que garante uma produtividade muito próxima do que é a convencional. Isso tudo são atrativos para os agricultores”, comenta.
De olho no crescente mercado dos orgânicos, e pensando em produzir frutas com maior saudabilidade, e que não ofereçam riscos à saúde, o agricultor Junior Gaiardo, 36 anos, da Linha 40, em Caxias do Sul, apostou no cultivo de morangos orgânicos. Há dois anos, ele plantou três mil mudas. Hoje já está com cinco mil pés produzindo, o que garante uma produção média de 300 gramas por planta, em torno de 1,5 mil quilos por ano.
Para Gaiardo, a principal vantagem da produção orgânica de morangos, além da qualidade e da certeza de estar produzindo um alimento saudável e livre de agrotóxicos, é o preço que quase não varia, ou seja, durante todo o ciclo se consegue o mesmo valor, o que não ocorre na produção convencional que vê os preços despencarem nos picos de safra, que vai de setembro a dezembro, por exemplo. “Sei o quanto vou ganhar e os custos que terei. Dessa forma, posso me planejar com mais segurança”, destaca o produtor.

Custos

A demanda por produtos cultivados sem a adição de agroquímicos é cada vez maior. Mas, para iniciar uma produção de morangos orgânicos, é necessário um investimento relativamente alto, com a cobertura, o substrato e as mudas, que são convencionais, importadas. Leandro Venturin observa que o custo inicial de instalação da produção orgânica é o mesmo da convencional. “É um custo bem elevado. A diferença está no retorno financeiro. Como retorno do orgânico é bem mais significativo, viabiliza bastante a cultura. A concorrência também é bem menor”, enumera.

Ao optar pela cultura orgânica de morangos, Junior Gaiardo aliou qualidade e rentabilidade aos seus produtos.

Ao optar pela cultura orgânica de morangos, Junior Gaiardo aliou qualidade e rentabilidade aos seus produtos.

 

E por falar em custos, Gaiardo também ressalta que os gastos de produção no sistema orgânico são inferiores, já que a despesa com insumos é muito menor, pois praticamente tudo o que é necessário pode ser preparado dentro da própria propriedade. Todavia, Gaiardo explica que a produção de morangos, assim como os demais produtos cultivados pelo sistema, pode enfrentar dificuldades, como a falta de mão de obra e riscos de sanidade das plantas. “A cultura do morango, especificamente, é bem restrita com relação à nutrição da planta. Hoje, trabalho, basicamente, com esterco fervido, mas chega um momento que acaba não sendo suficiente e a produção baixa bastante em função disso. Estou testando outras alternativas: utilizando terra no lugar do substrato, alterando o plantio para calhas e testando outras formulações de biofertilizantes com pó de rocha, calcário, e cinza de lenha, para não depender de um substrato externo”, conta Gaiardo, que também é engenheiro agrônomo e presta assessoria a outros produtores da região.

A produção de morangos de Gaiardo é certificada pela Rede Ecovida de Agroecologia, pioneira no desenvolvimento da certificação participativa. O produtor também pertence ao grupo Ecológico Mãos na Terra, que congrega cerca de 15 de produtores de morangos e outros produtos orgânicos. “Posso garantir que os produtores que pertencem a esse grupo são muito mais fiscalizados que os convencionais. São realizadas reuniões mensais e as propriedades são visitadas mensalmente. É um processo de certificação participativa. Todos têm que participar de todos os encontros durante o ano e se um produtor tiver alguma irregularidade, todos os demais são punidos. Então sabemos que todos precisam trabalhar dentro das normas, do que a lei exige”, explica Gaiardo.

As vantagens
A demanda é crescente e constante, sempre maior do que a produção. O mercado é garantido. Com relação ao preço de mercado, Venturin acredita que o morango orgânico custe em média entre 30% e 100% acima do convencional. “Nas feiras a diferença não é tão grande, mas nas gôndolas do supermercado essa diferença fica evidente”, sustenta o técnico.
O morango produzido por Gaiardo é vendido diretamente ao consumidor, na propriedade, e também distribuído em fruteiras ecológicas de Caxias do Sul. O produtor conta que um quilo de morando orgânico é vendido por ele a R$ 20 o quilo. Já nas bancas o preço final ao consumidor pode variar entre R$ 25 e R$ 30, enquanto o preço do convencional fica em torno de R$ 7 o quilo.

 

Das obras para a lavoura

Luiz Carlos Stuani está iniciando na produção de morangos orgânicos. Nos próximos dias, a ideia do produtor é cobrir a plantação que hoje conta com três mil mudas.

Luiz Carlos Stuani está iniciando na produção de morangos orgânicos. Nos próximos dias, a ideia do produtor é cobrir a plantação que hoje conta com três mil mudas.

O produtor Luiz Carlos Stuani, 60 anos, de Flores da Cunha (RS), decidiu investir na produção de morangos orgânicos após a aposentadoria. Ele conta que trabalhava com instalações elétricas, mas assim que se aposentou buscou realizar o sonho de viver no interior. Adquiriu uma propriedade na capela São Paulo, no interior do município, onde construiu uma casa e agora dedica-se à agricultura. Há cerca de dois meses ele plantou três mil mudas de morangos, ao quais são cultivados pelo sistema orgânico. As plantas ainda não frutificaram, mas ele já tem planos para a produção que deve ser colhida em aproximadamente 30 dias. A ideia, segundo ele, é distribuir as frutas em bancas de produtos orgânicos de Caxias do Sul e região. A produção de Stuani é certificada pela Ecopadua Consultoria Ambiental, que faz parte da Rede Ecovida de Certificação.
Atualmente, Stuani conta com a assessoria do engenheiro Junior Gaiardo e também frequenta as reuniões do grupo da Ecopadua a cada 30/40 dias para sanar dúvidas e discutir ideias e métodos melhorar a produção orgânica. “O principal motivo que me fez optar pela cultura orgânica é a saúde. Quero ter saúde e também não quero prejudicar quem consome os morangos que produzo, mas estou aprendendo com assistência do Junior”, comenta o produtor, que futuramente pretende cultivar também tomate e pepino orgânicos.

 

Cultivo orgânico: um ideal de vida

Solice Beatriz Moroni e a cunhada, Clarice Luíza Bonetti Moroni, tocam a propriedade e a produção de orgânicos.

Solice Beatriz Moroni e a cunhada, Clarice Luíza Bonetti Moroni, tocam a propriedade e a produção de orgânicos.

Ter uma produção limpa, ou seja, sem o uso de nenhum defensivo agrícola, sempre foi o ideal de vida da agricultora Solice Beatriz Moroni, 56 anos, moradora da Linha 47, segundo distrito de Farroupilha. Mas foi há cinco anos, após a morte de um familiar, em decorrência de um câncer causado pelo uso de agrotóxicos, que ela decidiu banir de vez os agroquímicos de sua propriedade. “Foi muito difícil, mas hoje estamos bem satisfeitas por poder oferecer produtos de qualidade e saudáveis”, conta a agricultora que toca a propriedade com a ajuda da cunhada, Clarice Luíza Bonetti Moroni, 44 anos, e da mãe, Maria Genny Savoldi Moroni, 82 anos. Elas produzem uva, pêssegos, ameixas, aspargos, beterraba, couve flor, brócolis, ervilhas e outras hortaliças de época.

Aos 82 anos, dona Maria Genny Savoldi Moroni mostra que saúde não falta para ajudar a filha, Solice, na produção dos morangos.

Aos 82 anos, dona Maria Genny Savoldi Moroni (E) mostra que saúde não falta para ajudar a filha, Solice, na produção dos morangos.

O morango orgânico tem destaque na propriedade, chegando há 10 mil mudas, o que rende uma produção média anual de 800 gramas por pé. Os morangos, assim como os demais produtos, são comercializados direto ao consumidor, em Bento Gonçalves, em Farroupilha e em Caxias do Sul.
Para ela, a cultura orgânica exige cuidados, mas é recompensadora. “Todos os dias é preciso olhar para a planta e descobrir o que ela precisa. Controlar fungos, bactérias e insetos (ácaros, pulgões). O investimento é alto no início, mas compensa”, ressalta a orgulhosa produtora de orgânicos. A rodução é certificada pela Rede Ecovida de Certificação.