Pesquisa identifica avanço da deriva de herbicidas e impactos crescentes na fruticultura do RS

Estudo da UFSM aponta danos recorrentes em videiras, oliveiras e nogueira-pecã e amplia coleta de dados até 2026 para mapear efeitos produtivos, econômicos e ambientais

Uma pesquisa conduzida pelo Colégio Politécnico da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) começa a lançar luz sobre um problema que vem preocupando produtores de diferentes cadeias frutícolas no Rio Grande do Sul e que já é observado em outros estados brasileiros: a deriva de herbicidas hormonais e seus impactos diretos na fruticultura.

O estudo, intitulado “Deriva de Herbicidas Hormonais e seus Impactos na Fruticultura do RS na percepção dos atingidos”, é coordenado pelos professores Gustavo Pinto da Silva e Roberson Macedo de Oliveira e está em fase de coleta ampliada de dados, com prazo previsto até fevereiro de 2026.

Até o momento, 148 produtores responderam ao questionário estruturado em escala Likert, aplicado via Google Forms. Embora o número ainda seja considerado baixo frente à diversidade e extensão das culturas sensíveis no estado, os dados iniciais já indicam um padrão consistente de ocorrência e impacto.

A pesquisa reúne respostas de 65 municípios, com maior participação, até agora, de Jaguari, Santana do Livramento e Encruzilhada do Sul. As atividades mais representadas são videira, oliveira e nogueira-pecã, culturas reconhecidamente sensíveis à deriva de herbicidas hormonais.

Segundo o professor Gustavo Pinto da Silva, o objetivo central do estudo é mapear a frequência e a distribuição geográfica da deriva, identificar regiões e períodos críticos, além de mensurar impactos produtivos, econômicos e ambientais nas propriedades afetadas. A pesquisa também busca compreender como esses danos influenciam decisões de investimento, permanência na atividade e demandas por políticas públicas específicas.

Experiência dos produtores reforça o grau de certeza

Um dado relevante é o perfil dos respondentes. Quase 50% dos produtores que participaram da pesquisa até agora atuam em suas culturas há mais de 20 anos. Para o professor Roberson Macedo de Oliveira, esse fator confere robustez às respostas. “Não são produtores que iniciaram ontem, mas conhecem de fato a cultura, a atividade, e isso é uma questão bem importante para as análises”, afirma.

Essa experiência se reflete no grau de convicção sobre a origem dos danos. Cerca de 70% dos produtores afirmam, com segurança, que os sintomas observados decorrem da deriva de herbicidas, percentual que sobe entre aqueles com mais tempo de atuação no campo. Já produtores que iniciaram a atividade a partir de 2020 demonstram uma percepção ainda em formação.

Frequência elevada e danos recorrentes

Entre os respondentes, 62% classificam a ocorrência da deriva como “muito frequente”. Os principais impactos relatados incluem deformação de folhas, perda de produtividade, morte de plantas e abortamento floral — danos que comprometem tanto o rendimento imediato quanto a longevidade dos pomares e vinhedos.

Outro ponto de atenção é o período de intensificação do problema. 82% dos produtores indicam que os sinais se tornaram mais evidentes a partir de 2015, com relatos pontuais anteriores, mas com aceleração clara nos últimos anos.

Desafio técnico e institucional

A pesquisa também evidencia dificuldades no reconhecimento do problema no campo. Para Aline Fogaça, da Aliança pela Fruticultura Gaúcha, ainda há resistência técnica. “Eu ainda encontro muitos vinhedos com problemas de deriva, mas os produtores não sabem, porque quem está dando a assessoria técnica, por diversos motivos, ainda não acredita que é a deriva”, relata.

Do ponto de vista jurídico, os dados ganham peso estratégico. Rosana Wagner, presidente da Associação Vinhos da Campanha Gaúcha, destaca a importância do levantamento para ações em andamento e futuras. “Parabéns pelo trabalho completo. Assim que finalizado, vamos utilizá-lo tanto na ação judicial dos vinhos da Campanha quanto para a futura ação a ser movida pela minha empresa Cordilheira de Santana”, afirma.

Ampliação do debate

Os pesquisadores reforçam que a ampliação da base de dados é essencial para consolidar diagnósticos, subsidiar políticas públicas e orientar decisões técnicas e regulatórias. Produtores de culturas sensíveis à deriva no Rio Grande do Sul são convidados a participar da pesquisa por meio do formulário online:

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSf-rS7Ozgmn8yjCB8S0KrrWG7EF7Ng2nGdr1u_-RisoA9iimw/viewform

Ao ampliar o alcance do estudo, a expectativa é não apenas qualificar o debate no RS, mas também estimular o envolvimento de outras instituições de pesquisa, entidades setoriais e órgãos reguladores, diante de um problema que ultrapassa fronteiras regionais e afeta diretamente a sustentabilidade da fruticultura brasileira.

 

 

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