
A técnica da dupla poda, que viabilizou a chamada colheita de inverno no Sudeste, mudou o jogo para regiões onde a vindima tradicional coincide com o pico de chuvas de dezembro e janeiro. Em Minas Gerais e em outras áreas do Sudeste, a estratégia de transferir a colheita para o período seco ganhou tração ao longo das últimas duas décadas e consolidou um modelo produtivo que hoje também influencia projetos em São Paulo, Rio de Janeiro, Centro-Oeste e no Distrito Federal.
Mas, se no início a vitivinicultura de inverno avançou sustentada por poucas castas, a agenda atual do setor é outra. A diversificação do portfólio tornou-se prioridade para atender o mercado, reduzir a dependência de dois rótulos e abrir espaço para novas identidades regionais.
É nesse ponto que a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) busca responder às demandas do setor com um pacote técnico mais amplo. Após trabalhos contínuos de avaliação varietal, a instituição passou a recomendar 16 cultivares adaptadas ao manejo de dupla poda para produção de vinhos de colheita de inverno: Syrah, Sauvignon Blanc, Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Grenache, Malbec, Marsanne, Marselan, Merlot, Mourvèdre, Muscat à Petits Grains Blanc, Pinot Noir, Tempranillo, Touriga Nacional, Vermentino e Viognier.
O conjunto de recomendações está reunido no Boletim Técnico da Epamig lançado em 2025, voltado a viticultores, consultores e extensionistas, com informações sobre produção e potencial enológico. A versão digital pode ser adquirida na livraria da Epamig.
Busca por novos rótulos

Com os primeiros vinhedos testados e a técnica validada, a adoção começou a se estruturar a partir de meados dos anos 2000. Ainda assim, por muitos anos o setor caminhou com poucas opções. “De 2010 a praticamente 2018, 2020, se plantou muito a Syrah e Sauvignon Blanc”, diz Câmara. Na prática, o peso dessas duas variedades dominou o perfil do vinho de inverno. “Até praticamente 2018, 2020, 80% do vinho, 90% do vinho, vinha de duas variedades”, relata.
O cenário, porém, começou a mostrar sinais de saturação. O pesquisador explica que a cadeia passou a sentir a necessidade de ampliar o leque de castas, acompanhando a demanda do consumidor e do enoturista por estilos além do eixo Syrah–Sauvignon Blanc. “O público, os enófilos, eles buscam por outros cultivares… Merlot, Cabernet, tudo o mais.”
Demanda compartilhada entre mercado e pesquisa
Segundo Câmara, a pressão por diversificação não veio de um único lado. “Foi um pouco dos dois”, afirma, ao explicar que a Epamig percebeu o movimento de produtores e vinícolas e, ao mesmo tempo, antecipou tendências por meio do olhar de mercado já presente na equipe. “Foi uma demanda meio que em conjunto, tanto do mercado quanto da pesquisa.”
Esse contexto coincidiu com a expansão geográfica do vinho de inverno, com novas vinícolas surgindo em diferentes estados e um público consumidor mais atento à variedade de uvas e estilos. “Todo o Sudeste já estava produzindo vinho de inverno… e em Brasília, ali no Centro-Oeste, também já estava tendo as primeiras vinícolas surgindo”, relata.
Avaliações de longo prazo e ajustes no manejo
Uma das chaves para ampliar o portfólio foi o tempo de avaliação e a evolução do manejo. Câmara aponta que, ao longo de cerca de 20 anos, a técnica foi refinada em vários pontos, da escolha de porta-enxertos ao sistema de poda. “A poda era uma coisa que não se havia testado antes… antes se podava com 2 gemas, hoje o produtor já poda com 3.” O cronograma de condução e colheita também se ajustou. “Antigamente se podava muito no início de janeiro, hoje já se poda um pouquinho mais para fevereiro.”
No experimento central descrito pelo pesquisador, a Epamig avaliou por cinco anos, entre 2018 e 2022, 12 variedades, sendo oito tintas e quatro brancas. Entre elas, apareceram resultados consistentes para castas como Marselan, Tempranillo, Grenache, Mourvèdre, Touriga Nacional, Viognier e Vermentino, além de uma leitura mais criteriosa sobre o que não respondeu bem.
Duas variedades, em especial, não avançaram para recomendação. “A Carmenère não foi bem de nenhum jeito, não conseguimos produção de maneira nenhuma”, relata Câmara, explicando que a equipe testou a cultivar em dois porta-enxertos e em sistemas de poda diferentes, sem resposta agronômica satisfatória. Já a Petit Verdot apresentou instabilidade. “Apenas um ano ela produziu bem… outros quatro anos ela não foi produtiva”, afirma.
Marselan ganha destaque no radar técnico
Dentro do conjunto avaliado, Câmara aponta a Marselan como uma das apostas mais promissoras para o futuro dos vinhos de inverno. “É uma das minhas apostas”, diz. Na avaliação do pesquisador, o potencial enológico pode superar o da Syrah em atributos importantes para vinhos de guarda. Ele explica que a Syrah pode apresentar limitações em algumas condições. “A Syrah trava em 21,2 de brix e a acidez cai muito… normalmente tem que passar por algum tipo de correção.” Já a Marselan, segundo ele, “vai chegar a 23, 24, 25 de brix com acidez de 90, 100, 110”, o que amplia possibilidades enológicas e estabilidade do vinho.
Publicação técnica e transferência de conhecimento
A recomendação ampliada das 16 cultivares consolida a transição do setor para um novo momento. Câmara ressalta que a divulgação de resultados ocorre em paralelo às demandas de pesquisa e ao esforço de transferência de tecnologia. “Nós iniciamos agora a divulgação dos dados”, afirma, destacando o lançamento de um comunicado técnico e a organização das informações em publicações acessíveis ao produtor.
O objetivo prático, segundo o pesquisador, é permitir que a vitivinicultura de inverno não dependa de um padrão único e possa construir identidade própria em diferentes terroirs e modelos de negócio. “Hoje, você vai em qualquer vinícola, vai ter Syrah, vai ter Sauvignon Blanc, mas já vai ter alguma outra variedade que já foi validada”, afirma.
Novas frentes de pesquisa e próximos passos
Além da diversificação para vinhos tranquilos, a Epamig mantém outras linhas que dialogam com demandas do mercado, incluindo avaliações adicionais de variedades italianas e francesas, estudos com uvas resistentes (PIWI) e uma frente dedicada a espumantes em regiões onde a dupla poda não é viável, mas existe potencial enológico específico.
Para a cadeia produtiva brasileira da uva e do vinho, o avanço do portfólio recomendado pela Epamig representa mais do que uma lista de cultivares. Indica maturidade técnica da colheita de inverno, resposta a um mercado que pede diversidade e um caminho para reduzir riscos climáticos, ampliar competitividade e sustentar novas fronteiras vitivinícolas no país.

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