
Após pelo menos três anos de estudos, discussões técnicas e busca por modelos de financiamento, a implantação de um sistema antigranizo na Serra Gaúcha segue sem concretização no Rio Grande do Sul. O tema voltou ao centro do debate em 2026 após uma comitiva técnica gaúcha realizar visitas a Santa Catarina, estado que opera a tecnologia de forma contínua desde o final da década de 1980 e apresenta maior grau de maturidade operacional na mitigação de perdas causadas por granizo.
A missão foi liderada pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) e reuniu representantes de 22 municípios da Serra Gaúcha e do Vale do Caí, além de técnicos da Defesa Civil, sindicatos rurais, seguradoras e entidades ligadas à vitivinicultura. As visitas ocorreram nos municípios catarinenses de Fraiburgo, Videira e Caçador, onde o sistema antigranizo já integra a rotina da fruticultura.
A retomada do tema ocorre em um contexto de recorrência de eventos climáticos severos. No final do ano passado, produtores de municípios como Vale Real, Caxias do Sul e Alto Feliz registraram perdas significativas de uva e outras culturas em razão do granizo. Episódios semelhantes também foram observados em regiões fora da Serra, como Sarandi, reforçando a percepção de que o fenômeno não é pontual e exige soluções estruturadas.
Uma das alternativas em estudo para viabilizar o sistema no Estado é o uso de recursos do Fundo de Desenvolvimento da Vitivinicultura. O presidente do Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do RS (Consevitis/RS), Luciano Rebellatto, avaliou o projeto como estratégico para toda a cadeia produtiva.
“Trata-se de um investimento estratégico para a vitivinicultura, pois contribui diretamente para a segurança econômica dos produtores, reduz as perdas provocadas por eventos climáticos extremos e fortalece a permanência dos viticultores na atividade. Além disso, o projeto beneficia a indústria, ao proporcionar maior previsibilidade quanto ao volume de produção, favorecendo o planejamento, a competitividade e a sustentabilidade de toda a cadeia produtiva”, afirmou.
Na avaliação de lideranças do setor, o principal entrave para o avanço do projeto no Rio Grande do Sul não está mais na viabilidade técnica, mas na complexidade administrativa, na articulação entre entes públicos e privados e na lentidão dos processos decisórios.
O presidente da Associação da Comissão Interestadual da Uva (ACIU), Ricardo Pagno, afirmou que a visita foi fundamental para esclarecer dúvidas e consolidar a viabilidade do sistema.
“Foi bom porque o pessoal não conhecia o sistema presencialmente. Tirou muitas dúvidas, inclusive do próprio governo do Estado, sobre como funcionam os repasses e as parcerias. O que se saiu de lá foi a certeza de que o sistema é viável, que vale a pena a implantação e com o compromisso de seguir o projeto. Agora temos que vencer as partes burocráticas”, relatou.
Pagno lembrou que o debate não é recente. “A ideia surgiu há uns três anos e meio, quase quatro. Depois evoluiu para apresentações técnicas, projetos e discussões. Hoje, a certeza é que o sistema funciona. O desafio é conseguir implantar o quanto antes”, completou.
Santa Catarina opera sistema há décadas
Em Santa Catarina, o sistema antigranizo está em funcionamento desde 1989, inicialmente impulsionado por grandes empresas da fruticultura da maçã no Meio-Oeste. Atualmente, o Estado conta com cerca de 170 geradores de solo que utilizam iodeto de prata para reduzir o tamanho das pedras de gelo, integrados a um sistema de monitoramento climático.
Segundo o assessor técnico da Secretaria da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina, Paulo Arruda, o modelo adotado no Estado vizinho demonstra eficiência e continuidade.
“Hoje estamos fazendo um investimento de R$ 22 milhões, atendendo praticamente 18 municípios, e pretendemos ampliar esse número. É um sistema que tem sua eficiência e é mais uma tecnologia que contribui para diminuir os prejuízos do granizo na agricultura e na agropecuária”, explicou.
A diferença de estágio entre os dois estados evidencia que, enquanto Santa Catarina opera e expande o sistema, o Rio Grande do Sul ainda busca consenso técnico, institucional e financeiro para sair do papel. Para a vitivinicultura gaúcha, que enfrenta perdas recorrentes e crescente pressão climática, a expectativa do setor produtivo é que 2026 seja o ano em que o debate avance do diagnóstico para a implementação efetiva.


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Santa Catarina opera sistema há décadas