
Uma iniciativa internacional que começou com uma pergunta simples — como proteger os vinhedos mais antigos do mundo de forma padronizada e verificável — acaba de ganhar um instrumento concreto. O Old Vine Registry, repositório global de videiras velhas criado com a colaboração da crítica britânica Jancis Robinson MW, lançou um selo oficial de certificação para vinhedos inscritos em sua base de dados. Para o Brasil, a novidade abre uma oportunidade que ainda é pouco conhecida no setor: regiões com tradição vitivinícola centenária, como Andradas, em Minas Gerais, e a Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul, podem abrigar vinhedos plenamente qualificados para integrar esse registro global.
Para se inscrever no registro, ao menos 85% das videiras de um talhão precisam ter no mínimo 35 anos comprovados. O cadastro na plataforma online é gratuito e aceita estimativas fundamentadas quando a data exata de plantio não está disponível. A partir de 1º de outubro, os produtores inscritos poderão adquirir o direito de uso do selo, mediante pagamento de uma tarifa única, para exibi-lo em garrafas, materiais físicos e plataformas digitais. O sistema prevê cinco categorias de longevidade, para videiras com mais de 35, 50, 75, 100 e 150 anos, com menções distintas para cada faixa.
A relevância do registro cresceu com a adesão da Organização Internacional da Vinha e do Vinho, a OIV, que adotou oficialmente a definição de videiras velhas do Old Vine Registry como base para futuras legislações internacionais. Atualmente, o repositório conta com 10.576 vinhedos documentados em 42 países, cobrindo aproximadamente 46 mil hectares. Além das vinícolas, importadores, distribuidores, concursos e publicações especializadas também poderão utilizar o selo para reforçar a autenticidade dos vinhos que promovem.
O Brasil tem argumentos históricos sólidos para participar. As primeiras videiras foram plantadas em Andradas em 1892, trazidas pelas famílias italianas Marcon e Piagentini, o que significa que parreirais da região com continuidade de cultivo desde aquela época poderiam se enquadrar na categoria de mais de 100 anos do registro. Na Serra Gaúcha, onde famílias de imigrantes italianos chegaram a partir de 1875 e plantaram videiras nas primeiras décadas seguintes, o mesmo potencial existe. Regiões como Monte Belo do Sul, Bento Gonçalves, Garibaldi e Flores da Cunha abrigam propriedades familiares com histórico de cultivo que remonta ao início do século XX.
O Old Vine Registry argumenta que videiras velhas são ativos ambientais por serem mais resistentes a secas e ondas de calor por conta de sistemas radiculares profundos e adaptados, menos dependentes de irrigação e insumos químicos, e reservatórios significativos de biomassa e carbono. A diversidade clonal presente em vinhedos centenários também é apontada como patrimônio genético relevante para o desenvolvimento de materiais mais resilientes para novos plantios.
Para produtores interessados em verificar se seus vinhedos se qualificam e iniciar o cadastro gratuito, o registro está disponível em oldvineregistry.org.
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