Como a aspersão de água protege os vinhedos da geada tardia

Vinícola de Monte Belo do Sul combina sistema automatizado e tratores para defender gemas já brotadas das baixas temperaturas

 

As últimas semanas colocaram os viticultores do Rio Grande do Sul em estado de atenção, especialmente aqueles cujos vinhedos já haviam iniciado a brotação em função das temperaturas acima do normal registradas no final de julho. Com as gemas jovens expostas, a geada tardia que veio na sequência representou um risco real. É exatamente nesse intervalo, entre a brotação e a estabilização das temperaturas, que o frio cobra seu preço mais alto sobre o ciclo produtivo.

Na Casa Marques Pereira, em Monte Belo do Sul, a resposta ao problema combina tecnologia e operação em campo. A vinícola instalou em 2024 um sistema automatizado de aspersão e utiliza tratores como proteção complementar durante as madrugadas de maior risco. “Os aspersores fazem uma névoa de água com gotículas bem finas. Quando essas gotículas chegam à gema, formam algo similar a um iglu, que protege a gema das videiras de queimar”, explica Felipe Marques Pereira, vinhateiro e empresário à frente da propriedade.

O método pode parecer contraditório, mas o princípio que o sustenta é físico. Quando a água congela sobre a superfície da planta, libera calor, mantendo a temperatura da mistura de água e gelo próxima de 0°C e protegendo os tecidos de temperaturas ainda mais baixas enquanto a aplicação for contínua. A interrupção do sistema durante o período crítico pode ser tão danosa quanto não utilizá-lo, porque o gelo formado sem reposição de calor passa a prejudicar a planta em vez de protegê-la.

Segundo a Embrapa, os tecidos jovens da videira apresentam maior sensibilidade ao congelamento e podem sofrer danos irreversíveis quando submetidos a temperaturas próximas ou abaixo de 0°C, com impacto sobre folhas, ramos e estruturas reprodutivas que compromete o potencial produtivo do ciclo inteiro. Antes da brotação, as gemas apresentam maior resistência ao frio, mas com o desenvolvimento dos primeiros tecidos verdes esse limite cai significativamente, tornando o monitoramento noturno uma necessidade permanente nesse período.

O cenário desta temporada é agravado pelo padrão climático que o Portal A Vindima vem acompanhando ao longo do inverno. O calor fora de época registrado em julho antecipou a brotação em parte dos vinhedos, reduzindo a janela de segurança antes das geadas, num momento em que a Embrapa alerta para a probabilidade de 97% a 99% de permanência do El Niño até o início de 2027, com estimativa de intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Para o setor, episódios como os desta semana tendem a se repetir com mais frequência.

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