
A proximidade da safra da uva 2026 reacende um dos principais desafios da vitivinicultura brasileira, a contratação de trabalhadores temporários. Na Serra Gaúcha, maior polo vitivinícola do país, a disputa por mão de obra se intensificou nos últimos anos, impulsionada pela forte presença da indústria, pelo envelhecimento da população rural e pela saída de jovens em busca de outras oportunidades de trabalho.
Segundo Jarbas Fagundes, advogado e diretor-executivo da Via Rural — startup especializada na intermediação e gestão da contratação de trabalhadores safristas —, a dificuldade não é recente. Um estudo realizado pela empresa em 2018 já apontava que cerca de 15 mil pequenos produtores da Serra Gaúcha dependem de mão de obra externa ao longo da safra. Desde então, o cenário se tornou ainda mais competitivo.

Na avaliação do especialista, o produtor que pretende contratar safristas em 2026 precisa partir de um ponto básico. Ninguém aceita trabalhar por menos de R$ 150 por dia, o equivalente a cerca de três salários mínimos mensais em períodos intensivos de trabalho. “O trabalhador não quer favor, ele quer dignidade. Assinar carteira e pagar INSS é o básico do básico”, reforça.
Além do salário, Jarbas destaca que as condições de trabalho são o segundo fator decisivo. Alojamento adequado, com água quente, luz, internet, boas condições de higiene, fornecimento de EPIs, alimentação, seguro e cumprimento integral da legislação trabalhista passaram a ser requisitos mínimos. “Se o produtor não estiver disposto a oferecer isso, ele não só não vai conseguir trabalhador, como pode enfrentar problemas com o Ministério do Trabalho”, alerta.
A vitivinicultura, nesse ponto, tem um diferencial histórico. “A cultura de alojamento do produtor de uva é um exemplo nacional. Muitas propriedades utilizam casas antigas da família, bem estruturadas, o que não existe em outras culturas. Isso é algo que levamos como aprendizado para o resto do país”, explica Jarbas.
O especialista também faz um alerta ao setor. Outras cadeias agrícolas estão mais agressivas na atração de mão de obra. “Na soja, um operador de colheitadeira ganha entre R$ 6 mil e R$ 7 mil por mês. Com dois fins de semana de curso, ele domina a máquina. A uva precisa se tornar mais atraente para competir”, diz.
Para Jarbas, o crescimento da vitivinicultura e o fortalecimento das vinícolas tornaram a economia da Serra Gaúcha ainda mais pujante. “É uma mega economia, que projetou o estado para além do Brasil. Isso não pode retroagir”, lembra.
PL 676/2025 levanta debate sobre modernização ou retrocesso
O Projeto de Lei nº 676/2025, que propõe alterações nas regras de contratação temporária na agropecuária, tem gerado debates intensos no setor. Para Jarbas Fagundes, qualquer mudança que represente perda de direitos ao trabalhador pode agravar ainda mais a falta de mão de obra.
“Se o novo PL for um retrocesso para o trabalhador, ele simplesmente não vem. Qualquer proposta que retire conquistas adquiridas cria um problema grave”, afirma. O advogado alerta especialmente para emendas que sugerem contratação informal ou dispensa de contribuição ao INSS. “Isso é inviável. Em caso de acidente ou óbito, a indenização pode se estender por décadas. Sem INSS, o risco jurídico é enorme.”
Ele reforça que a formalização protege ambos os lados. “Carteira assinada, acesso ao INSS e segurança jurídica são fundamentais. Desburocratizar é positivo, mas não à custa da proteção social.”
Entidades representativas dos trabalhadores rurais também manifestaram preocupação, como na nota de repúdio publicada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores Assalariados e Assalariadas Rurais (CONTAR), que critica pontos do projeto por enfraquecer garantias históricas.
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