Europa acelera aposta em mercados emergentes e mira Índia

Acordo Índia–UE reduz tarifas e reposiciona o vinho europeu fora dos mercados maduros
Foto: Reuters

 

O setor vitivinícola europeu avança de forma coordenada na diversificação de mercados e intensifica o foco em países emergentes como resposta à retração do consumo nos destinos tradicionais. Nesse movimento, o Brasil permanece relevante, mas a Índia passa a ocupar posição central na estratégia europeia, impulsionada pela conclusão do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o governo indiano.

A mudança ocorre em um cenário de queda estrutural do consumo de vinho na Europa. Dados oficiais indicam que o consumo médio per capita no bloco caiu de cerca de 30 litros em 2005 para aproximadamente 20,6 litros em 2024, refletindo transformações no perfil do consumidor, maior moderação no consumo de álcool e pressão regulatória. Tendência semelhante já é observada em mercados historicamente estratégicos, como Estados Unidos e Reino Unido.

Diante desse contexto, a Índia surge como uma fronteira de crescimento. Com 1,4 bilhão de habitantes, classe média em expansão e consumo ainda inferior a 1 litro per capita, o país representa um mercado considerado amplamente subexplorado. Atualmente, a União Europeia exporta mais vinho para a Islândia, com cerca de 400 mil habitantes, do que para a Índia — um dado que ilustra o potencial de expansão.

Redução tarifária muda o jogo

O novo acordo comercial entre Índia e União Europeia prevê uma redução gradual e significativa das tarifas de importação sobre vinhos europeus, atualmente em torno de 150%. Com a entrada em vigor do tratado, as alíquotas caem imediatamente para 75% e, ao longo de cinco a dez anos, devem atingir 20% para vinhos premium e 30% para vinhos de faixa intermediária.

Vinhos com preço inferior a €2,50 ficam fora das concessões, em um movimento explícito de proteção à indústria local indiana, que domina os segmentos de entrada. Para o setor europeu, a medida favorece especialmente os vinhos de preço médio, hoje considerados os mais penalizados pelas tarifas e que representam a maior parte das exportações do bloco.

Segundo o Comité Européen des Entreprises de Vins (CEEV), atualmente a União Europeia envia à Índia majoritariamente vinhos muito baratos — para diluir o impacto das tarifas — ou rótulos de luxo, destinados a um público restrito. A redução tarifária tende a abrir espaço para uma faixa intermediária mais ampla e competitiva.

Espumantes e vinhos europeus ganham protagonismo

Entre os segmentos com maior potencial de crescimento na Índia estão os vinhos espumantes. Dados da Unione Italiana Vini (UIV) indicam que 47% do vinho consumido no país é espumante, e a demanda por esse tipo de produto deve crescer até quatro vezes mais rápido do que a dos vinhos tranquilos até 2028.

Esse cenário favorece diretamente países como Itália, França e Espanha. Atualmente, a Itália lidera as exportações europeias de vinho para a Índia, seguida por França e Espanha, ainda que o volume total represente apenas 0,5% das exportações da UE em 2025. A expectativa do setor é que a redução tarifária torne vinhos europeus mais acessíveis, ampliando sua presença nos canais de varejo e hospitalidade, especialmente em grandes centros urbanos.

Especialistas do mercado indiano avaliam que o impacto será mais qualitativo do que quantitativo no curto prazo. A tendência não é de aumento expressivo no volume consumido, mas de “upgrade” do consumo, com maior presença de rótulos premium e maior diversidade nas cartas de vinho e programas de taça.

Reações do mercado indiano

A perspectiva de maior abertura também gera preocupação entre produtores locais. Vinícolas indianas temem que a entrada de vinhos importados de menor preço pressione o mercado doméstico. Por isso, a exclusão dos vinhos abaixo de €2,50 das concessões tarifárias é vista como um mecanismo de equilíbrio, preservando a competitividade dos produtores locais nos segmentos de maior volume.

Ao mesmo tempo, parte do setor indiano reconhece que a presença de vinhos europeus de alto valor agregado contribui para o desenvolvimento da cultura do vinho no país, amplia a qualificação do consumidor e fortalece o mercado como um todo.

O que o movimento europeu sinaliza ao produtor brasileiro

Para o produtor da cadeia da uva e do vinho no Brasil, o avanço europeu sobre a Índia oferece uma leitura estratégica de mercado. A intensificação das negociações comerciais e a adaptação das exportações às faixas de preço indicam que os grandes produtores globais buscam compensar a estagnação dos mercados maduros com crescimento em países onde o consumo ainda está em formação.

Esse movimento reforça que o futuro do vinho passa pela diversificação geográfica, pelo alinhamento a novos perfis de consumo e pela capacidade de competir em ambientes regulatórios complexos. Ao mesmo tempo, evidencia que acordos comerciais, tarifas e posicionamento de produto são fatores determinantes para acessar mercados emergentes — uma lição relevante também para o Brasil, tanto como destino de exportações quanto como potencial fornecedor em nichos específicos.

Mais do que volumes imediatos, a aposta europeia na Índia sinaliza uma reorganização do mapa global do vinho, em que mercados como Brasil e Índia deixam de ser periféricos e passam a integrar o centro das estratégias de longo prazo do setor.

 

 

 

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