
Pela primeira vez em sua história, a Festa Nacional da Uva incluiu na programação oficial a distribuição de uvas orgânicas ao público. A iniciativa marca um reconhecimento simbólico e institucional à produção agroecológica da Serra Gaúcha e insere o tema na principal vitrine da viticultura brasileira.
Nesta edição, cerca de oito toneladas de uva orgânica foram adquiridas dentro de um volume total aproximado de 130 toneladas distribuídas durante o evento. A medida ocorre em um contexto de expansão gradual da produção orgânica na região, mas ainda com desafios estruturais de mercado, escala e fomento público.
Para produtores, a presença na Festa da Uva representa mais do que visibilidade. Trata-se de um espaço estratégico de posicionamento diante do consumidor e da cadeia produtiva.
Produção cresce, mas mercado desafia
Carla Rodrigues Suliani, viticultora de São Marcos (RS), iniciou a transição para o sistema orgânico em 2013. Hoje, a propriedade produz cerca de 25 toneladas anuais de Niágara branca e rosada, destinadas exclusivamente ao consumo in natura.
Segundo ela, a principal motivação foi a saúde do agricultor e da família. “Quem mais se expõe aos defensivos é o produtor. A gente optou por um sistema que preserva nossa saúde e permite agregar valor ao produto”, afirma.
A comercialização, no entanto, exige estratégia. A maior parte da produção é escoada para Curitiba, São Paulo e Florianópolis. “Aqui na região já há mais produtores orgânicos. Para não competir no mesmo mercado, buscamos outros estados”, explica.
O desafio, segundo Carla, está no equilíbrio entre menor produtividade e maior valor agregado. Enquanto propriedades convencionais podem colher mais de 60 toneladas por hectare, a produção orgânica gira em torno de 22 a 25 toneladas. “O risco é não encontrar mercado e ter que vender como convencional”, pontua.
Agricultura familiar e sustentabilidade

Ele destaca que o sistema orgânico se alinha a um conceito mais amplo de sustentabilidade. “Reduzimos drasticamente o uso de defensivos e trabalhamos com equilíbrio da planta, não com máxima produtividade”, afirma.
Para Vitor, o maior entrave está na disputa por espaço nas gôndolas. “O consumidor valoriza, mas na hora da compra olha o preço. Como a escala é menor, nossa margem também é mais limitada”, observa.
Ainda assim, ele considera que ações como a da Festa da Uva são estratégicas. “É um passo importante. Quando o público prova e percebe diferença de sabor e qualidade, cria-se uma relação de confiança. Isso fortalece o mercado no longo prazo.”
Reconhecimento institucional
O diretor executivo do Consevitis-RS, Eduardo Piaia, avalia que a inclusão da uva orgânica no evento representa um momento de valorização. “É a primeira vez que a Festa distribui produção orgânica. É um reconhecimento ao trabalho desafiador desses produtores, especialmente em uma região como a Serra Gaúcha, onde o manejo já é complexo”, afirma.
Segundo ele, a medida reforça a diversidade da viticultura regional e amplia a percepção sobre diferentes sistemas de produção dentro da cadeia.
Fomento e políticas públicas
A discussão sobre mercado e viabilidade econômica passa também pelo papel das políticas públicas. Estados como o Paraná, segundo produtores, apresentam maior estímulo ao consumo e à certificação de orgânicos.
No Rio Grande do Sul, o lançamento do PNAE Agroecológico durante a Festa da Uva, nesta quinta-feira (26) sinaliza avanço institucional. O programa busca fortalecer a agricultura familiar e ampliar a presença de alimentos agroecológicos na alimentação escolar. A iniciativa beneficiará diretamente 90 famílias agricultoras em municípios da Serra e da Região Metropolitana.
O PNAE já prevê percentual mínimo de compras da agricultura familiar para a merenda escolar. A vertente agroecológica amplia essa diretriz, estimulando a transição produtiva e garantindo mercado institucional.
Perspectivas
Embora a produção orgânica ainda represente parcela menor da viticultura regional, o escoamento para fora do Rio Grande do Sul é uma característica recorrente entre os produtores. A demanda mais consolidada em grandes centros urbanos impulsiona a comercialização interestadual.
Para o setor, a visibilidade na Festa da Uva pode ampliar o consumo interno e estimular novos produtores a considerar a transição, desde que haja segurança de mercado e políticas de fomento.
A inclusão da uva orgânica na principal celebração da vitivinicultura brasileira consolida um debate que ultrapassa o consumo pontual e dialoga com temas estruturais: sustentabilidade, saúde do produtor, diversificação de renda e fortalecimento da agricultura familiar.
Para a cadeia produtiva da uva, o gesto é simbólico — mas também estratégico.

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