O setor vitivinícola francês enfrenta um movimento de recuo na produção orgânica, com viticultores abandonando certificações diante de perdas expressivas nas colheitas e aumento dos custos de produção. O fenômeno já atinge regiões tradicionais como Loire e Bordeaux e levanta dúvidas sobre a viabilidade econômica do modelo em determinados contextos climáticos.
Produtores que investiram anos na conversão para o sistema orgânico passaram a rever a estratégia após uma sequência de safras desafiadoras. Entre os fatores mais citados estão a pressão de doenças fúngicas, especialmente o míldio, e a limitação dos insumos permitidos na agricultura biológica.
Um dos casos emblemáticos é o de Sébastien Redde, da propriedade Michel Redde et Fils, em Pouilly-sur-Loire. Após quatro anos de conversão e certificação, o viticultor registrou, em 2024, uma das piores colheitas da década. “Realizamos 22 tratamentos, mas as chuvas lavaram o cobre antes de surtir efeito. Perdemos cerca de 90% da produção”, relatou. Diante do cenário, a safra não foi engarrafada e as uvas foram comercializadas a granel.
O problema não é isolado. Muitos produtores que iniciaram a transição em 2020 e obtiveram certificação em 2023 interromperam o processo no ano seguinte. As condições climáticas extremas, com alta umidade e chuvas frequentes, têm dificultado o controle de doenças dentro das regras do sistema orgânico.
Além da eficácia limitada, o uso de cobre, um dos poucos insumos permitidos, tem elevado custos operacionais. A necessidade de reaplicações frequentes aumenta a carga de trabalho sem garantir proteção efetiva, comprometendo a produtividade e a rentabilidade das propriedades.
No campo econômico, a redução das colheitas pressiona o fluxo de caixa das vinícolas, sobretudo familiares. Em muitos casos, produtores são obrigados a vender uvas a preços reduzidos ou deixar de comercializar safras inteiras, o que amplia o debate sobre a sustentabilidade financeira do modelo.
O mercado também exerce influência. Embora exista demanda por vinhos orgânicos, nem sempre o consumidor absorve os custos adicionais envolvidos na produção. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com impactos agronômicos de longo prazo, como o acúmulo de cobre no solo.
Diante do cenário, organizações do setor na França têm solicitado apoio institucional, incluindo flexibilização temporária de regras e mecanismos de suporte financeiro, para evitar um abandono mais amplo da viticultura orgânica.
Brasil também enfrenta entraves no orgânico
O movimento observado na França encontra eco no Brasil. No Rio Grande do Sul, produtores alertam para a perda de espaço da viticultura orgânica diante de entraves regulatórios e operacionais.
Durante a Expointer 2025, um manifesto entregue ao Ministério da Agricultura apontou queda de 50% na produção de uvas orgânicas nos últimos cinco anos. Entre os principais desafios estão burocracia no processo de certificação, exigências técnicas consideradas inadequadas e limitações no uso de insumos.
Segundo o documento, atrasos na emissão de certificados, divergências entre modelos de certificação e falta de especialização técnica de auditores têm desestimulado produtores.
O manifesto reúne demandas que não se restringem ao Rio Grande do Sul, mas refletem desafios enfrentados por produtores orgânicos em diferentes regiões do país. Até o momento, cerca de sete meses após a entrega do documento, o setor informa não ter recebido retorno formal do Ministério da Agricultura sobre as propostas apresentadas.
Assim como na Europa, o cenário brasileiro reforça a necessidade de revisão de políticas públicas, desenvolvimento tecnológico e adaptação das práticas produtivas para equilibrar sustentabilidade e viabilidade econômica no setor vitivinícola.
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