
A vitivinicultura brasileira avança em estrutura técnica fora do eixo tradicional com a inauguração do primeiro laboratório de certificação e análise de vinhos do Centro-Oeste. Instalado em Brasília (DF), o Centro de Análises e Pesquisa da Vitivinicultura Brasileira passa a operar como referência nacional para os chamados Vinhos de Inverno, com impacto direto na competitividade do setor.
A nova estrutura, inaugurada nesta terça-feira (31) pela Associação Nacional dos Produtores de Vinho de Inverno (Anprovin) em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), traz um diferencial econômico relevante: a possibilidade de reduzir em até 50% os custos laboratoriais para produtores das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Bahia.
O ganho está ligado à proximidade entre produção e análise. Até então, muitos produtores precisavam enviar amostras para laboratórios em outras regiões, elevando custos logísticos e prazos. Com a nova unidade, esse processo tende a se tornar mais ágil, acessível e eficiente.
Além do impacto financeiro, o laboratório amplia a capacidade técnica do setor. Projetado para realizar até 400 análises mensais, o centro opera com equipamentos de alta precisão e segue padrões recomendados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Entre os serviços oferecidos estão análises físico-químicas, cromatografia líquida e gasosa, fundamentais para avaliar compostos que influenciam diretamente o perfil sensorial, a qualidade e a segurança dos vinhos.
Para o presidente da Anprovin, Cláudio Góes, a proximidade da estrutura com o campo representa uma mudança significativa na dinâmica produtiva. “Vocês vão entender, no dia a dia, a importância desse laboratório próximo da produção. Isso impacta diretamente na inovação, no crescimento e na qualidade dos vinhos”, afirmou.
Góes também destacou a dimensão nacional do movimento. “Hoje já temos mais de duas centenas de produtores nesse sistema, além dos quase 60 associados da Anprovin. É o Brasil todo se reunindo em torno desse avanço”, disse.
A técnica da dupla poda, base dos vinhos de inverno, vem expandindo a vitivinicultura para regiões de clima tropical de altitude, alterando o calendário produtivo ao concentrar a colheita no período seco. Atualmente, o sistema está presente em estados como Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Goiás, Mato Grosso e Distrito Federal.
No conjunto, essas regiões somam cerca de 1,2 milhão de videiras e produção anual próxima de 1 milhão de garrafas, com expectativa de triplicar esse volume nos próximos anos à medida que novos vinhedos entram em produção.
O impacto regional também é expressivo. No Distrito Federal, a produção de uvas viníferas alcançou 1.425 toneladas em 2024, movimentando R$ 18,2 milhões, segundo dados do IBGE, reforçando o potencial da vitivinicultura em novas áreas produtivas.
Para o produtor Ronaldo Triacca, idealizador da Vinícola Brasília, a estrutura representa um marco para o avanço técnico do setor. “É um dia para entrar na história da viticultura brasileira. Esse laboratório tem um nível tecnológico que vai atender muitas regiões e impulsionar a qualidade dos vinhos”, afirmou.
Triacca também destacou a integração com pesquisa como diferencial estratégico. “Temos aqui, ao lado, uma estrutura de pesquisa sendo desenvolvida. Isso cria uma base muito forte para avançar na qualidade dos vinhos de inverno”, disse.
A conexão entre tecnologia e desenvolvimento da cadeia foi reforçada pelo presidente da ABDI, Ricardo Cappelli. “Esse laboratório é mais do que um equipamento. Ele se transforma em um motor de desenvolvimento, não só na produção, mas também no enoturismo e na consolidação da vitivinicultura como vetor econômico”, destacou.
Com investimento de R$ 3,4 milhões, o centro passa a oferecer, além das análises, serviços de consultoria enológica, cursos, treinamentos e workshops, ampliando a qualificação técnica e a profissionalização da cadeia produtiva.
Mais do que uma estrutura regional, o laboratório sinaliza uma mudança de escala e organização da vitivinicultura brasileira. Ao aproximar tecnologia, pesquisa e produção, o setor avança na construção de um modelo mais distribuído, técnico e competitivo, com impacto direto na qualidade dos vinhos e na expansão de novas fronteiras produtivas no país.



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