A vitivinicultura mundial perde uma de suas figuras mais influentes. Morreu hoje, 20 de março, aos 78 anos, o enólogo francês Michel Rolland, consultor global que ajudou a moldar o estilo do vinho moderno e se tornou referência incontornável para produtores em diferentes continentes.
Nascido em Libourne, no coração de Bordeaux, Rolland cresceu entre vinhedos no Château Le Bon Pasteur, em Pomerol, propriedade da família. Formado em enologia pela Universidade de Bordeaux, construiu uma trajetória que ultrapassou os limites tradicionais da profissão ao levar sua atuação para dezenas de países, consolidando o conceito do “flying winemaker” — o enólogo que cruza fronteiras para orientar vinícolas ao redor do mundo.
Ao longo de décadas, prestou consultoria para mais de 150 vinícolas em 14 países, participando de projetos emblemáticos como Harlan Estate, nos Estados Unidos, Ornellaia, na Itália, e Château Angélus, na França. Sua atuação também foi decisiva na Argentina, país que considerava sua segunda casa, onde contribuiu diretamente para a consolidação do Malbec como variedade de referência internacional, com projetos como Clos de los Siete, Bodega Rolland e parcerias em regiões como Salta.
Mais do que uma presença constante nos principais polos produtores, Rolland foi um agente de transformação. Em um período em que a qualidade do vinho ainda era frequentemente associada a parâmetros técnicos limitados, defendeu a centralidade do vinhedo, a importância da maturação plena da uva e o cuidado com cada etapa do processo produtivo. Sua visão ajudou a reposicionar o vinho como produto de identidade e expressão, mas também como resultado de decisões técnicas precisas.
Entre suas contribuições mais marcantes está a difusão de práticas que hoje se tornaram amplamente adotadas, como a colheita em ponto ideal de maturação, a seleção rigorosa de uvas, o uso estratégico do carvalho e técnicas como a micro-oxigenação, que contribuíram para a produção de vinhos mais estruturados, macios e acessíveis ao consumidor contemporâneo.
Essa abordagem, no entanto, não passou sem críticas. Rolland esteve no centro do debate sobre a chamada “padronização” do vinho, especialmente após sua participação no documentário Mondovino, de 2004, que questionava a influência de consultores internacionais sobre a identidade dos vinhos. Para alguns, seu estilo aproximava perfis sensoriais e favorecia uma estética global. Para outros, representava um avanço técnico e uma resposta direta ao mercado.
O próprio Rolland sempre defendeu que seu trabalho era, antes de tudo, voltado ao consumidor. Para ele, qualidade e prazer deveriam caminhar juntos, independentemente de escolas ou correntes de pensamento.
No Brasil, sua atuação também deixou marcas. Entre 2003 e 2013, esteve próximo ao Grupo Miolo em um momento considerado decisivo para a evolução qualitativa da empresa e, por extensão, do próprio setor vitivinícola nacional. Sua consultoria contribuiu para a incorporação de referências internacionais e para o reposicionamento de vinhos brasileiros em um cenário mais competitivo.
Para Adriano Miolo, a presença de Rolland foi determinante nesse processo. Segundo ele, o enólogo teve papel relevante ao acelerar o desenvolvimento da qualidade dos vinhos produzidos no país, trazendo uma visão global e contribuindo para elevar o padrão técnico e comercial da produção.
Mais do que os resultados no campo e na adega, Rolland também foi reconhecido pela forma direta com que se relacionava com produtores e equipes, em uma convivência marcada por trocas francas e pela busca constante por evolução.
Sua carreira começou a ganhar dimensão internacional a partir dos anos 1980, período em que a vitivinicultura passou por uma transformação significativa, com maior atenção à qualidade como fator de diferenciação. Rolland esteve no centro desse movimento, defendendo mudanças em práticas agrícolas e enológicas que hoje são amplamente aceitas, mas que à época exigiam convencimento, experimentação e, sobretudo, visão de longo prazo.
Ao longo de sua trajetória, construiu não apenas uma carreira, mas uma influência duradoura. Seu laboratório, Rolland & Associés, em Pomerol, tornou-se referência para análises e consultorias, atendendo produtores de diversas partes do mundo.
Michel Rolland deixa um legado que ultrapassa estilos ou escolas. Sua contribuição está na forma como ajudou a conectar técnica, mercado e cultura, influenciando gerações de enólogos e participando ativamente da construção do vinho contemporâneo.
Amado por muitos, contestado por outros, foi, acima de tudo, um protagonista de seu tempo — alguém que entendeu que o vinho, mais do que tradição, também é movimento.
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