A produção de uvas PIWI começa a ganhar tração no Sul do Brasil, com Santa Catarina assumindo protagonismo na pesquisa, validação agronômica e difusão das primeiras variedades comerciais. Desenvolvidas para apresentar resistência genética às principais doenças fúngicas da videira, as PIWI surgem como alternativa técnica relevante diante do aumento dos custos de produção, das mudanças climáticas e da crescente demanda por vinhos mais leves, especialmente brancos.

A validação técnica foi extensa. As PIWI foram testadas em diferentes condições de solo e clima, de baixas a altas temperaturas, com resultados consistentes de adaptação. “Ela se comportou muito bem em diversos ambientes. Claro que manejo, época de poda e colheita mudam, mas a adaptabilidade surpreendeu”, relata Cinara. Esse desempenho explica o interesse crescente fora de Santa Catarina, com consultas já vindas do Centro-Oeste, especialmente Goiás.

A resistência genética reduz a necessidade de aplicações fitossanitárias, fator estratégico para regiões mais úmidas e para produtores que buscam eficiência operacional e menor impacto ambiental. Esse atributo dialoga diretamente com uma tendência de mercado mais ampla, de valorização de práticas sustentáveis e de produtos com menor carga de defensivos.
Mercado em transição e foco nos brancos
A aposta nas PIWI também se conecta à mudança no perfil de consumo. Pesquisas indicam crescimento da demanda por vinhos brancos, leves e frescos, especialmente entre novos consumidores. “O vinho do novo consumidor é mais leve, geralmente branco. O produtor está mudando, ainda que exista resistência, porque o vinho é histórico, enraizado”, observa Cinara.
Na prática, a adoção ocorre de forma gradual. O produtor não substitui imediatamente suas variedades tradicionais; testa, avalia desempenho e, a partir dos resultados, amplia áreas. “Ele está ampliando, não trocando. Como é uma uva nova, existe cautela”, reforça Sarah.
Pesquisa, pós-venda e suporte técnico
A difusão das PIWI no Brasil ocorre ancorada em pesquisa pública e assistência técnica. Além da Epagri, a Embrapa teve papel central ao longo dos últimos anos ao estimular a diversificação varietal e mudar a lógica produtiva do setor, especialmente com as cultivares BRs. “A Embrapa fez a primeira quebra cultural. Produzir uva fina é difícil, e o consumidor muitas vezes não percebe isso”, destaca Cinara.
O pós-venda e a orientação técnica são considerados decisivos para o sucesso das PIWI. O manejo difere das viníferas tradicionais, e o produtor precisa de acompanhamento. “Não adianta vender e fechar as portas. O produtor precisa dessa informação”, diz Sarah. A Epagri, como instituição pública, mantém suporte aberto a produtores de qualquer região, inclusive fora do estado.
Perfil do produtor e novas fronteiras
O produtor que busca PIWI procura mercado, produtividade e viabilidade em regiões onde viníferas tradicionais têm desempenho limitado. “São produtores de regiões mais quentes, que querem produzir uvas finas e vinhos locais, reduzindo a dependência de rótulos importados”, explica Sarah. A resistência a doenças e o bom desempenho em temperaturas elevadas fazem das PIWI uma alternativa concreta para novas fronteiras vitivinícolas.
Expectativa para variedades tintas
Embora as primeiras PIWI lançadas sejam brancas, a expectativa do mercado já se volta às tintas. A Epagri conduz pesquisas avançadas nesse sentido, em fase final. “A primeira pergunta do produtor é se tem PIWI tinta. Existe uma expectativa muito grande”, relata Cinara. A incorporação dessas futuras cultivares é vista como estratégica para ampliar o portfólio e atender a diferentes segmentos de mercado.
Para a cadeia produtiva brasileira da uva e do vinho, as PIWI representam mais do que uma nova variedade, sinalizam uma resposta técnica a desafios estruturais do setor — clima, sanidade, custos e consumo — com base em pesquisa sólida, inovação e adaptação ao mercado.

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