O impasse em torno do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul voltou a gerar forte reação do setor vitivinícola europeu, que vê no tratado uma ferramenta central para ampliar o acesso a mercados estratégicos — com o Brasil no topo das prioridades. A decisão do Parlamento Europeu de submeter o texto ao Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) pode adiar a entrada em vigor do acordo por 18 a 20 meses, frustrando expectativas do setor produtivo.
Para as empresas de vinho da União Europeia, o adiamento mantém barreiras comerciais elevadas, amplia custos e posterga ganhos de competitividade em um momento de retração do consumo nos mercados tradicionais. O Brasil, maior importador de vinhos do Mercosul, aparece como o principal destino das exportações europeias e o mercado com maior potencial de crescimento.
Em entrevista exclusiva ao Portal A Vindima, o secretário-geral do Comité Européen des Entreprises de Vins (CEEV), Ignacio Sánchez Recarte, afirma que a iniciativa do Parlamento Europeu reflete sobretudo uma tentativa de atrasar o processo de ratificação, influenciada pelo contexto político interno de alguns países-membros.
“O pedido responde principalmente a uma vontade de atrasar o processo de ratificação. Para um grupo importante de eurodeputados, no entanto, é politicamente complexo se opor a essa verificação jurídica adicional. Está claro que a situação política nos países-membros também influenciou o voto.”
Do ponto de vista das vinícolas europeias, o custo do atraso é concreto. Atualmente, as exportações de vinho da União Europeia para o Mercosul enfrentam mais de 40 milhões de euros por ano em tarifas, valor que poderia ser reduzido significativamente com a entrada em vigor do acordo.
“O impacto é imediato. A cada ano, o vinho europeu exportado para o Mercosul precisa enfrentar quase 44 milhões de euros em tarifas. A entrada em vigor do acordo permitiria reduzir esse custo, em benefício dos produtores e dos consumidores da América do Sul.”
Esses números ajudam a explicar a mobilização do setor europeu em defesa do tratado, visto como essencial para garantir competitividade internacional e previsibilidade comercial.
Dentro do Mercosul, o Brasil é considerado o mercado-chave para o vinho europeu. Segundo Recarte, o país concentra a maior parte das exportações do bloco e reúne condições únicas de expansão do consumo.
“O Brasil é, de longe, o maior mercado de importação de vinho da América do Sul. Ele representa sozinho 86% das exportações de vinho da União Europeia para o Mercosul. Além disso, é o principal mercado que oferece o maior potencial de crescimento para o vinho.”
Para o produtor brasileiro, essa leitura evidencia que o acordo não é apenas uma discussão institucional, mas parte de uma estratégia ativa das vinícolas europeias para ampliar presença no mercado nacional, com impactos diretos sobre concorrência, preços e posicionamento de produto.
O CEEV ressalta que o interesse europeu vai além da redução tarifária. O acordo é visto como um instrumento para simplificar procedimentos e eliminar entraves técnicos que hoje dificultam o acesso ao mercado brasileiro.
“O acordo reduz a burocracia, simplifica os procedimentos de importação e elimina importantes barreiras não tarifárias — como as diferenças nas práticas enológicas, nas normas de ensaio e nos requisitos de certificação — o que o transforma em um verdadeiro ponto de inflexão para as exportações de vinho da União Europeia.”
A harmonização dessas regras tende a tornar o mercado mais dinâmico e competitivo, exigindo maior atenção dos produtores brasileiros quanto à diferenciação, qualidade e estratégia comercial.
Pressão por aplicação provisória
Apesar de o Conselho da União Europeia já ter autorizado a assinatura do acordo, a oposição de alguns países — como França, Hungria e Irlanda — e a pressão de setores agrícolas mantêm o tratado paralisado. Diante disso, o setor vitivinícola europeu defende uma solução intermediária: a aplicação provisória do acordo, sem aguardar a conclusão total do processo de ratificação.
“Pedimos que o acordo comece a ser aplicado o mais rápido possível. Do ponto de vista jurídico, isso é possível, já que o Conselho autorizou a Comissão Europeia a fazê-lo. Falta apenas a decisão política.”
Segundo Recarte, a ratificação do acordo por ao menos um país do Mercosul pode ajudar a tornar mais claro o horizonte para essa aplicação provisória, reduzindo a incerteza que hoje afeta decisões de investimento e planejamento do setor.
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