RS confirma implantação do sistema antigranizo em projeto piloto e prevê operação até a safra de 2026

Com aporte confirmado pelo Governo do Estado, estudo técnico e instalação começam imediatamente; setor vitivinícola alerta para urgência após destruição total de vinhedo em Sarandi e intensificação dos eventos de granizo na primavera

 

Depois de três anos de tratativas, estudos, reuniões técnicas e frustrações com prazos não cumpridos, o Rio Grande do Sul finalmente confirmou o início da implantação do tão aguardado sistema antigranizo na Serra Gaúcha e nos Campos de Cima da Serra. A decisão foi oficializada em reunião nesta quarta-feira (12), na Casa Civil, reunindo governo estadual, parlamentares, entidades e lideranças municipais.

A confirmação marca um avanço histórico para a vitivinicultura gaúcha, que nos últimos anos tem convivido com perdas severas causadas por tempestades cada vez mais frequentes e intensas — efeito direto da mudança climática. Apenas na semana passada, uma forte queda de granizo destruiu 100% da produção da Vinícola Vizini, em Sarandi, eliminando a safra potencial de 100 toneladas de uvas em quatro hectares de videiras em plena floração. O episódio reacendeu a urgência do projeto e pressionou o Estado por respostas concretas.

A instalação e o estudo técnico serão viabilizados pelo Fundo de Desenvolvimento da Vitivinicultura (Fundovitis). E, segundo Eduardo Piaia, diretor-executivo do Consevitis-RS, o ponto decisivo foi o anúncio do aporte financeiro do Governo do Estado, que não estava assegurado nas negociações anteriores.

“A diferença agora é que o aporte estadual está confirmado, permitindo que o processo avance imediatamente. É a primeira vez que temos garantia efetiva para a implantação”, confirma.

O investimento previsto para o projeto piloto é estimado entre R$ 5 milhões e R$ 6 milhões, com manutenção anual na ordem de R$ 10 milhões — custo que deverá ser dividido entre os municípios participantes e demais entidades envolvidas.

Por que o sistema não ficou pronto este ano?

Embora o setor tivesse expectativa de iniciar a operação ainda em 2025, Piaia explica que as etapas técnicas, regulatórias e financeiras nunca estiveram integralmente asseguradas, o que inviabilizou qualquer avanço prático.

“Foram muitas reuniões ao longo dos últimos anos, mas sem os recursos e sem as confirmações oficiais, não havia tempo hábil para instalar. A formalização anunciada agora muda o cenário”, assegura.

Com o aporte garantido, a construção inicia imediatamente. Se todas as etapas fluírem como previsto, o sistema estará operacional para a safra do final de 2026.

Como será a implantação a partir de agora?

A Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) coordenará diretamente a implantação e o estudo técnico. As próximas ações incluem:

• Alinhamento com prefeitos e secretários municipais;
• Definição de áreas de cobertura e pontos de disparo;
• Ajustes operacionais para início do estudo de campo;
• Construção do modelo de sustentabilidade financeira para manutenção anual.

Piaia reforça que, além da implantação, a garantia da manutenção anual é fundamental para a continuidade do programa. “O sistema só funciona se houver manutenção permanente. Agora, o grande desafio das entidades e dos municípios será consolidar esse compromisso”, disse.

14 municípios participam do projeto piloto

Manifestaram interesse em integrar o sistema:

  • Ipê
  • Antônio Prado
  • Nova Pádua
  • Nova Roma do Sul
  • Flores da Cunha
  • São Marcos
  • Caxias do Sul
  • Farroupilha
  • Pinto Bandeira
  • Bento Gonçalves
  • Monte Belo do Sul
  • Santa Tereza
  • Garibaldi
  • Carlos Barbosa

 

Outros três municípios devem ser confirmados.

A região concentra mais de 60% da produção de uvas do Brasil e é responsável por grande parte dos vinhos, espumantes e sucos nacionais. Por isso, o impacto potencial do sistema é alto, especialmente para pequenos produtores e agricultores familiares.

Por que o antigranizo é urgente para o RS?

Desde setembro, a chegada da primavera intensificou a ocorrência de tempestades severas no Sul do país. Somente em outubro e novembro, o INMET emitiu sucessivos alertas laranja e vermelho para granizo, ventos de até 100 km/h e chuvas intensas.

O desastre em Sarandi, no último dia 3, demonstrou a vulnerabilidade do estado: vinhedos, pomares e lavouras foram dizimados em minutos. Para produtores com áreas pequenas — como é o caso da maior parte da vitivinicultura de base familiar — um único evento pode comprometer a renda de um ano inteiro.

O setor cobra, desde 2022, um programa permanente de prevenção, citando exemplos de países como França e Itália, que possuem redes consolidadas de defesa antigranizo. No Brasil, porém, questões ambientais, orçamentárias e de governança atrasaram a implantação por três anos, deixando os produtores expostos.

O sistema antigranizo — operado por geradores de partículas higroscópicas lançadas na atmosfera — reduz a formação de pedras de granizo que causam danos em lavouras, residências e infraestrutura. A expectativa é que o projeto piloto sirva de modelo para expansão futura.

Para Piaia, o avanço representa mais do que uma conquista regional, “é um passo decisivo para a segurança produtiva e para a estabilidade econômica do setor. A vitivinicultura brasileira precisa de políticas estruturantes — e este é um exemplo concreto de cooperação entre Estado, municípios e entidades”.

 

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