Serra Gaúcha avança na seleção de clones próprios e busca reduzir dependência de material europeu

Projeto conduzido pela Embrapa Uva e Vinho amplia base genética adaptada ao terroir local e pode impactar diretamente a qualidade e a competitividade do setor

 

A vitivinicultura da Serra Gaúcha avança em um dos pontos mais estratégicos para o futuro da produção brasileira de vinhos finos, a base genética das videiras. Um projeto conduzido pela Embrapa Uva e Vinho tem buscado desenvolver e validar clones adaptados às condições locais, com o objetivo de reduzir a dependência de materiais introduzidos de programas europeus e ampliar a identidade produtiva da região.

A iniciativa, conhecida como Seleclone, reúne atualmente cerca de 135 clones de 59 variedades viníferas em diferentes estágios de estudo. Desse total, aproximadamente 75 materiais estão em fase de avaliação, enquanto 14 já se encontram em etapa final de validação. Dois clones, das cultivares Cabernet Franc e Tannat, foram encaminhados para registro no Registro Nacional de Cultivares, com lançamento previsto ainda para este ano.

O avanço ocorre em um contexto de expansão da vitivinicultura voltada a vinhos finos no Rio Grande do Sul. Dados de 2025 do Sistema de Informações da Área de Vinhos e Bebidas indicam que mais de 2 mil vitivinicultores cultivam uvas da espécie Vitis vinifera no estado, ocupando cerca de 6,5 mil hectares. A maior parte dessa produção é destinada à elaboração de vinhos finos, o que amplia a demanda por materiais com desempenho agronômico consistente e qualidade enológica adaptada às condições locais.

Historicamente, o setor brasileiro utilizou clones desenvolvidos na Europa, nem sempre testados previamente nos solos e no clima da Serra Gaúcha. Essa lacuna técnica é uma das motivações do projeto, que busca gerar recomendações mais precisas e desenvolver alternativas selecionadas diretamente no ambiente de produção brasileiro.

Segundo o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, Léo Carson, o programa atua tanto na avaliação de clones comerciais quanto na identificação de variações espontâneas observadas em campo. Essas variações, muitas vezes identificadas pelos próprios produtores, podem apresentar características de interesse agronômico ou enológico e passam a ser estudadas em um processo estruturado de seleção.

Além da avaliação genética, o projeto incorpora um componente sanitário considerado central para a qualidade do material vegetal. Os clones passam por processos de limpeza para eliminação de vírus que afetam a videira, o que permite a disponibilização de mudas com maior garantia de sanidade. A combinação entre adaptação local e qualidade sanitária é vista como um dos principais diferenciais em relação aos materiais importados.

O processo de seleção clonal não busca criar novas variedades, mas aprimorar materiais já existentes. Trata-se da identificação e validação de plantas que apresentam variações desejáveis dentro de uma mesma cultivar, como maior estabilidade produtiva, melhor adaptação a condições ambientais específicas, potencial enológico superior ou resistência a fatores adversos. Esse processo ocorre ao longo de várias etapas, desde a prospecção em vinhedos comerciais até a avaliação por, no mínimo, quatro safras, validação e posterior registro.

O ciclo completo pode levar de sete a dez anos, o que reforça o caráter de longo prazo da iniciativa. Entre os materiais em estudo, há também casos de mutações naturais ocorridas na própria Serra Gaúcha, como um Chardonnay de baga rosada identificado no distrito de Tuiuty, em Bento Gonçalves, que passou a integrar o programa.

O projeto é desenvolvido desde 2015 e conta com articulação junto a associações de produtores vinculadas a indicações geográficas da região, como Vale dos Vinhedos, Pinto Bandeira, Monte Belo do Sul e Flores da Cunha e Nova Pádua. Nos últimos anos, recebeu apoio financeiro do Consevitis-RS, voltado à aquisição de equipamentos, insumos e estrutura para microvinificação. Ao longo de uma década, os investimentos acumulados da Embrapa superam R$ 928 mil, enquanto o instituto aportou cerca de R$ 52 mil entre 2024 e 2025.

Para o presidente do Consevitis-RS, Luciano Rebelatto, a participação institucional em projetos dessa natureza está relacionada à necessidade de alinhar pesquisa e demandas do setor. Segundo ele, o desenvolvimento de materiais próprios pode contribuir para valorizar características locais e ampliar a consistência produtiva, aspectos considerados relevantes para o posicionamento da vitivinicultura brasileira.

A expectativa é de que novos clones sejam disponibilizados gradualmente ao mercado. A projeção indica que pelo menos mais seis materiais possam ser lançados até 2030, incluindo cultivares de ampla relevância comercial, como a Cabernet Sauvignon.

Para o setor, o avanço da seleção clonal representa mais do que uma alternativa técnica. A possibilidade de trabalhar com materiais adaptados ao solo e ao clima locais tende a reduzir riscos produtivos, melhorar a regularidade entre safras e ampliar a expressão de características regionais nos vinhos. Ao mesmo tempo, diminui a dependência de importação de mudas e fortalece a base científica da vitivinicultura nacional.

Em um cenário em que identidade, qualidade e consistência ganham peso no mercado, o desenvolvimento de clones próprios se insere como um dos elementos estruturais para a evolução do setor no Brasil.

 

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