Aurora chega aos 95 anos com foco em inovação e futuro do setor

Maior cooperativa vinícola do Brasil aposta em tecnologia, sucessão e novos mercados
presidente Renê Tonello – Foto: Eduardo Benini

A Cooperativa Vinícola Aurora chega aos 95 anos consolidada como a maior vinícola do Brasil e uma das principais referências da vitivinicultura nacional. Mais do que celebrar a trajetória construída por gerações de produtores, a cooperativa projeta o futuro com foco em inovação, sucessão no campo e adaptação às mudanças no consumo.

Fundada em 1931 por 16 famílias, a Aurora reúne hoje cerca de 1.100 cooperados e responde por uma parcela significativa da produção de uvas do Rio Grande do Sul, principal estado vitivinícola do país.

Em entrevista ao Portal A Vindima, o presidente do Conselho de Administração, Renê Tonello, destaca que o cooperativismo segue sendo a base do modelo.

A Vindima – A Aurora nasceu do sonho de 16 famílias em 1931. Qual é o maior legado dessas gerações de viticultores que ainda orienta a cooperativa hoje?

Renê Tonello – O maior legado é, sem dúvida, a força do cooperativismo. Lá atrás, essas 16 famílias entenderam que, juntas, poderiam transformar a realidade do campo e garantir mais dignidade às suas atividades. Foi ali que se plantou uma semente de união, trabalho e esperança. Ao longo das décadas, essa semente cresceu, gerou frutos e consolidou a Aurora como a maior cooperativa vinícola do Brasil, sempre mantendo esse espírito coletivo como base das decisões.

A Vindima – Ao completar 95 anos, qual foi a principal transformação vivida pela cooperativa nas últimas décadas?

Renê Tonello – A Aurora passou por diversas transformações importantes, desde avanços tecnológicos na indústria até a evolução das práticas no campo, que hoje garantem uma matéria-prima de excelência. Mas, talvez, a mudança mais significativa seja a transformação social: o fortalecimento do sentimento de pertencimento dos cooperados. Safra após safra, eles se reconhecem ainda mais como protagonistas e donos do negócio, o que reforça a governança e o compromisso com o futuro da cooperativa.

A Vindima – A vitivinicultura brasileira passa por mudanças no consumo e no mercado global. Como a Aurora enxerga o futuro do vinho e do suco de uva no Brasil?

Renê Tonello – O cenário é desafiador, mas repleto de oportunidades. Observamos mudanças no comportamento do consumidor, especialmente entre os mais jovens, com uma redução no consumo de álcool. Isso abre espaço para novas categorias, como bebidas sem álcool e produtos desalcoolizados. Ao mesmo tempo, o consumidor tradicional segue valorizando o vinho, o que nos desafia a inovar em variedades de uvas, estilos e na exploração de diferentes terroirs. O suco de uva mantém uma demanda consistente, e os espumantes vivem um momento muito positivo, com consumo cada vez mais desassociado de datas específicas e ganhando espaço no dia a dia.

A Vindima -. Um dos desafios atuais do campo é a sucessão familiar. Como a cooperativa trabalha para manter jovens nas propriedades e garantir a continuidade da viticultura?

Renê Tonello – A sucessão familiar é uma prioridade para a Aurora. Desde 2017, desenvolvemos o programa Aprendiz Cooperativo do Campo, que prepara jovens de 14 a 24 anos para dar continuidade às propriedades, com formação técnica e visão de gestão. Já são mais de 100 participantes formados e dezenas em capacitação. Além disso, investimos fortemente em tecnologia no campo, como mecanização, uso de drones e melhoria das condições de trabalho, tornando a atividade mais atrativa e sustentável para as novas gerações.

A Vindima – A escassez de mão de obra tem sido apontada como um dos gargalos da agricultura. Esse também é um desafio para os viticultores associados à Aurora?Renê Tonello – Sim, é um desafio presente. A viticultura é uma atividade intensiva, especialmente em períodos como a colheita. Muitos produtores ainda recorrem a redes de apoio entre familiares e vizinhos, em um modelo colaborativo que faz parte da cultura local. Paralelamente, a cooperativa incentiva a adoção de tecnologias e a mecanização.

A Vindima – A tecnologia vem transformando o trabalho nos vinhedos e na indústria. Quais inovações têm impactado mais a produção de uvas e vinhos nos últimos anos?

Renê Tonello – No campo, destacam-se tecnologias como estações meteorológicas para monitoramento climático, estudos de fertilidade de gemas, pulverização por drones, irrigação controlada e colheita mecanizada. Na indústria, há uma constante atualização de equipamentos e processos. Mas é importante ressaltar que tecnologia nenhuma substitui o fator humano: o olhar do viticultor na parreira e o trabalho dos enólogos e equipes técnicas seguem sendo determinantes para a qualidade final dos produtos.

A Vindima – O setor também enfrenta questões de mercado, concorrência internacional e mudanças no consumo. Quais são hoje os maiores desafios para a vitivinicultura brasileira?

Renê Tonello – Entre os principais desafios estão a carga tributária e a logística, que impactam diretamente a competitividade. A concorrência com vinhos importados é histórica, mas tem servido também como estímulo para elevarmos o nosso padrão de qualidade. Outro ponto importante é o combate ao descaminho, que precisa ser enfrentado de forma mais efetiva. Ainda assim, o setor tem evoluído muito e demonstra capacidade de crescimento consistente.

A Vindima – O enoturismo cresceu muito na Serra Gaúcha. Qual é o papel dessa atividade na aproximação entre consumidor e vitivinicultura?

Renê Tonello – O enoturismo é fundamental nesse processo. Ele proporciona experiências que conectam o consumidor à origem do produto, à história das famílias e ao trabalho por trás de cada garrafa. A Aurora foi pioneira ao abrir suas portas para visitação, em 1967, e hoje é umas das vinícolas brasileiras que mais recebe visitantes no país. Isso tem um papel educativo muito relevante, permitindo que as pessoas conheçam mais sobre o vinho, participem de degustações e valorizem a produção nacional. Em 2025 registramos recorde no número de visitantes nas três unidades da cooperativa, com mais de 260 mil pessoas, o que demonstra uma retomada na atividade após o período de retratação que vivemos em 2024 por conta das fortes chuvas no Rio Grande do Sul.

A Vindima – Sustentabilidade tem se tornado um tema central no agronegócio. Como a Aurora tem incorporado práticas ambientais e de gestão responsável na produção?

Renê Tonello – A sustentabilidade está integrada à estratégia da Aurora por meio de uma agenda estruturada de ESG. Avançamos na gestão de temas ambientais, sociais e de governança. Criamos um Comitê de Sustentabilidade, realizamos a análise de dupla materialidade e estamos na fase de execução e monitoramento das ações. No campo, a tecnologia tem sido uma aliada importante para otimizar o uso de insumos e reduzir ainda mais os impactos ambientais, sempre alinhando produtividade com responsabilidade.

A Vindima – Olhando para os próximos anos, quais são as principais oportunidades para a cooperativa e para o setor da uva e do vinho no Brasil?

Renê Tonello – As mudanças no comportamento do consumidor abrem novas frentes, especialmente em produtos não alcoólicos. Além disso, o setor vive um momento de amadurecimento, com evolução na qualidade, maior expressão de terroirs e expansão para novas regiões produtoras, beneficiando toda a cadeia. A tecnologia também surge como aliada para melhorar a qualidade de vida no campo e fortalecer o modelo cooperativista, que tem um impacto social muito relevante.

A Vindima – O Brasil ainda consome menos vinho do que países tradicionais. O que precisa acontecer para ampliar o consumo e fortalecer o mercado nacional?

Renê Tonello – É fundamental ampliar o trabalho de educação e cultura do vinho no Brasil. O enoturismo tem um papel importante, assim como a qualificação da experiência no ponto de venda, com mais informação ao consumidor. Investimentos em comunicação e a valorização do produto nacional também são essenciais para ampliar o consumo de forma consistente.

A Vindima – A vitivinicultura brasileira tem ganhado reconhecimento internacional. O que ainda falta para o Brasil se consolidar como referência global em vinhos e sucos de uva?

Renê Tonello – O Brasil está no caminho certo. É importante lembrar que somos uma indústria relativamente jovem quando comparada a países tradicionais. O reconhecimento já vem crescendo, especialmente pela qualidade e identidade dos nossos produtos. A continuidade desse trabalho, com consistência e posicionamento internacional, tende a consolidar ainda mais essa imagem.

A Vindima – Depois de 95 anos de história, qual é o próximo grande salto que a Aurora pretende dar nos próximos anos?

Renê Tonello – O próximo grande marco é o centenário, que já começa a ser planejado com projetos importantes, como a ampliação da unidade no Vale dos Vinhedos. Mas mais do que crescimento físico, o foco está no fortalecimento da governança, na valorização dos cooperados e no avanço em tecnologia e inovação, sempre com responsabilidade ambiental. O objetivo é seguir crescendo de forma sustentável, honrando a história construída e os aprendizados que nos trouxeram até aqui e preparando a cooperativa para as próximas gerações.

Cerca de quatro mil pessoas na festa de 95 anos da Vinícola Aurora – Foto: Eduardo Benini

Perfil da cooperativa

Ano de fundação: 1931.

Número de cooperados: 1.100 famílias.

Área cultivada: 3 mil hectares em 11 cidades da Serra Gaúcha (Bento Gonçalves, Veranópolis, São Valentim do Sul, Guaporé, Cotiporã, Monte Belo do Sul, Santa Tereza, Pinto Bandeira, Vila Flores, Farroupilha e Garibaldi).

Volume de uvas processadas: na safra 2025, a cooperativa recebeu 71,6 milhões de quilos de uva. Para a safra 2026, a previsão é de que sejam colhidos cerca de 90 milhões de quilos (colheita deve encerrar no final de março). Historicamente, a Aurora processa de 10% a 15% da safra de uvas do Rio Grande do Sul.

Faturamento: R$ 874 milhões (2025).

Número de produtos: mais de 220 produtos.

Presença no mercado internacional: 1,3 milhão de litros de vinhos de vinhos, espumantes e sucos de uva para 15 países em 2025 (crescimento de 7% em relação a 2024), sendo China, Paraguai e Gana os principais compradores.

Número de visitantes no enoturismo: nos últimos cinco anos, 1,2 milhão de turistas visitaram a Cooperativa Vinícola Aurora, entre brasileiros (especialmente das regiões Sul, Sudeste e Nordeste) e estrangeiros. Em 2025, 260.872 visitantes desfrutaram das experiências enoturísticas da Aurora, número recorde desde que a cooperativa abriu as portas para a atividade turística. Os principais estados emissores: São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Todas as opções de atrativos turísticos da Cooperativa Vinícola Aurora podem ser conferidas no www.vinicolaaurora.com.br , na aba Enoturismo.

Diretores Vinícola Aurora – Foto: Eduardo Benini

Quem acompanha o Portal A Vindima por e-mail terá acesso antecipado a artigos exclusivos sobre os temas mais relevantes da vitivinicultura brasileira! Cadastre-se no campo ‘Receba as notícias por e-mail e fique atualizado’ no final desta página!

Compartilhe:

Deixe um comentário

Consultor bordalês, símbolo do “flying winemaker”, influenciou estilos, técnicas e mercados do Velho ao Novo Mundo, com passagem decisiva pelo...
Projeto conduzido pela Embrapa Uva e Vinho amplia base genética adaptada ao terroir local e pode impactar diretamente a qualidade...
Alta global, medidas do governo e risco logístico colocam em atenção produtores, vinícolas, importadores e pontos de venda...