Metodologia da OIV distorce percepção sobre consumo de vinho no Brasil

Crescimento de 41,9% divulgado internacionalmente não reflete o consumo real do mercado brasileiro em 2025

 

Por Carlos Paviani

Em 12 de maio, a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) apresentou os resultados das estatísticas mundiais de produção, comercialização e exportação de vinhos em 2025. O Brasil tornou-se ponto de interesse global porque, de acordo com os dados divulgados, o consumo interno cresceu 41,9% em 2025, a maior taxa de crescimento do mundo.

Na prática, porém, o aumento da comercialização no mercado brasileiro foi muito menor. Segundo dados da Central das Cooperativas Vitivinícolas (CENECOOP), a alta registrada no ano passado foi de 4,4%, considerando vinhos e espumantes, nacionais e importados, em relação ao ano anterior.

Os números chamaram atenção justamente em um momento em que o consumo global de vinhos e derivados da uva e do vinho segue em queda, atingindo em 2025 o menor patamar dos últimos 50 anos.

“O problema é que a metodologia utilizada pela OIV para o que eles denominam de ‘consumo aparente’ é definida por ‘produção + importação – exportação’. Como nossa produção em 2024 foi atípica, com uma queda de quase 50%, resulta em aumento elevando em 2025, quando comparada com 2024”, explica o diretor da CENECOOP, Leocir Bottega, profissional que acumula anos de análise dos dados estatísticos do setor.

Os dados divulgados pela OIV são baseados nas informações oficiais repassadas pelos países membros da entidade, seguindo critérios internacionais de consolidação estatística.

Para a Ideal BI, empresa especializada em análise de dados do mercado vitivinícola no Brasil, o abastecimento do mercado de vinhos e espumantes registrou crescimento de 8% em 2025, totalizando 54,5 milhões de caixas de 9 litros, o equivalente a cerca de 490 milhões de litros.

De acordo com o CEO da Ideal BI, Felipe Galtaroça, as vendas das vinícolas para o varejo e as importações nem sempre representam consumo final, já que essas operações refletem principalmente o abastecimento do mercado.

Mesmo com divergências entre as metodologias utilizadas pelas diferentes fontes, o consumo brasileiro em 2025 não aumentou 42%, como divulgaram diversos órgãos de imprensa e influenciadores sem conhecimento aprofundado do mercado vitivinícola.

Diversas publicações no Brasil, Europa e outras partes do mundo alardearam o crescimento superior a 40%, levando produtores e exportadores internacionais a direcionarem atenção ao mercado brasileiro.

Espumantes cresceram 79% em 10 anos

Apesar da distorção gerada pela metodologia da OIV, os números de longo prazo mostram que o mercado brasileiro segue em expansão gradual.

Em 2015, a comercialização de espumantes, nacionais e importados, totalizou 22,6 milhões de litros. Em 2025, esse volume chegou a 40,4 milhões de litros, crescimento de 79% no período. Os dados foram apresentados na Wine South America pelo CEO da Ideal BI, Felipe Galtaroça.

Já a categoria de vinhos de mesa e vinhos finos, nacionais ou importados, passou de 304,5 milhões de litros para 450,5 milhões de litros, um avanço de 48% no mesmo intervalo.

O consumo per capita também apresentou crescimento no período, passando de 1,61 litro para 2,3 litros por habitante, aumento de 42%.

Nesse intervalo, o menor consumo foi registrado em 2016, quando a quebra de safra no Rio Grande do Sul reduziu significativamente a oferta e derrubou o volume total comercializado para 293,9 milhões de litros de vinhos e espumantes de todas as origens.

O maior consumo ocorreu em 2020, primeiro ano da pandemia, quando o mercado brasileiro atingiu 501,1 milhões de litros. Mesmo com crescimento observado nos últimos três anos, o setor ainda não voltou ao patamar registrado naquele período.

 

 

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