
Produtores que há anos relatam perdas de safra, morte de mudas e abandono de vinhedos por causa da deriva do herbicida 2,4-D agora têm respaldo científico para o que vivem. Uma pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria, publicada no repositório científico SciELO Preprints, ouviu 395 fruticultores distribuídos por 141 municípios do Rio Grande do Sul e chegou a uma conclusão que o setor produtivo já conhecia na prática: o problema é grave, está espalhado pelo estado, e quem sofre mais está parando de investir.
O estudo foi assinado pelos pesquisadores Gustavo Pinto da Silva e Róberson Macedo de Oliveira, do Colégio Politécnico da UFSM, e por Gabrieli Rieth Marasca, do Centro de Ciências Rurais da mesma universidade. Os três construíram e validaram o Índice de Severidade da Deriva, o ISDERIVA, que mede a intensidade dos danos percebidos pelos agricultores a partir de sete sintomas registrados nas propriedades.
Os sintomas considerados foram folhas deformadas em forma de copo, queda anormal de flores e frutos, redução da qualidade da produção, morte de plantas adultas, morte de mudas, danos em plantas nativas e abandono de área produtiva. Quase metade dos produtores entrevistados se enquadrou nas duas classes mais graves do índice. A videira foi a cultura principal de 41,5% dos respondentes.
O que o estudo revela vai além dos danos às plantas. Os pesquisadores identificaram que a deriva afeta diretamente as decisões econômicas dos produtores. Quanto maior o dano percebido, maior o receio de investir, ampliar a propriedade ou continuar na atividade.
Para o professor Gustavo Pinto da Silva, o estudo transforma algo que vinha sendo vivido de forma silenciosa em evidência concreta. “A deriva tem comprometido a diversidade produtiva, historicamente defendida como uma matriz econômica fundamental para a economia dos estados. Se o Estado não proteger essas atividades de cultivos sensíveis, abre-se espaço para a homogeneização produtiva e para a dependência crescente de poucos sistemas agrícolas. Se nada mudar, estamos fadados à paralisia de investimentos, especialmente nessas regiões que têm clamado por socorro”, afirma.
Em regiões onde a soja e o milho avançam sobre áreas próximas a vinhedos e pomares, como na regional de Santa Maria e em municípios como Jaguari e São Sepé, os índices de retração chegaram aos níveis mais críticos registrados pelo levantamento. Nesses territórios, muitos produtores com décadas de experiência relataram que estão freando qualquer novo investimento por não saber se a planta colocada no solo hoje ainda estará viva na próxima safra.
Um dos dados mais reveladores do estudo é o que mostra quem denuncia e quem não denuncia. Apenas 34,9% dos fruticultores afetados formalizaram alguma queixa junto aos órgãos competentes.
Segundo o professor Gustavo, a baixa formalização tem menos a ver com ausência de danos e muito mais com descrença no sistema. “A pesquisa mostra que a baixa formalização das denúncias está menos relacionada à ausência de danos e muito mais a um sentimento de desamparo e descrença na efetividade do sistema de fiscalização e controle”, explica.
Entre os que chegaram a denunciar, 66% não consideraram o processo efetivo, e 77% já enfrentavam impactos moderados a drásticos antes de agir. “Para muitos fruticultores, denunciar significa desgaste nas relações de vizinhança. Soma-se ainda a dificuldade de comprovar tecnicamente a deriva e a percepção de que os encaminhamentos são caros, lentos e raramente resultam em reparação concreta ao fruticultor atingido. O Estado precisa se posicionar mais”, afirma o pesquisador.
Dos produtores que não denunciam, quase 90% não têm o cultivo registrado como cultivo sensível ou desconhecem que o governo do RS disponibiliza essa ferramenta, criada em 2019. Informação é proteção, e quem está fora do sistema está mais exposto.
O produtor de uva tem uma vantagem nesse cenário. O estudo mostra que viticultores têm quase três vezes mais chance de denunciar a deriva do que outros fruticultores expostos ao mesmo nível de dano. Os pesquisadores apontam a organização do setor vitivinícola, com cooperativas, sindicatos e entidades ativas, como o fator que explica essa diferença.
O problema, no entanto, não é exclusivo do Rio Grande do Sul. Produtores de Minas Gerais, São Paulo e Paraná que cultivam uva e outras frutas em regiões de expansão de lavouras de commodities enfrentam situações semelhantes. Para eles, este estudo oferece um caminho: organização setorial e base técnica são instrumentos de defesa tão importantes quanto qualquer medida regulatória.
A publicação do estudo coincidiu com a confirmação, pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, da proibição do 2,4-D na Campanha Gaúcha. Para o professor Gustavo, os dados do estudo dialogam diretamente com essa decisão.
“Os resultados evidenciam que os impactos da deriva não são casos isolados, mas um problema sistêmico, com efeitos produtivos, econômicos, sociais e ambientais relevantes. Esses resultados reforçam um ponto central da decisão judicial: quando não se consegue garantir coexistência segura entre diferentes sistemas produtivos, medidas mais restritivas passam a ser uma alternativa legítima de proteção”, afirma.
“Mais do que servir como prova jurídica isolada, a pesquisa oferece evidências técnicas de que esse não é um conflito localizado, mas uma discussão ampla sobre limites, responsabilidades e sobre qual modelo de agricultura queremos construir no futuro”, completa.
Quando perguntados sobre qual medida governamental priorizariam, 65,3% dos produtores responderam que querem a proibição total do 2,4-D. Entre os que sofreram os danos mais severos, essa proporção sobe para 76,5%.
A pesquisa não deixa dúvida de que não se trata de posição ideológica. É a demanda de quem perdeu colheita, perdeu planta e está perdendo a vontade de continuar. Essa demanda agora tem número, metodologia e publicação científica atrás dela.
O Portal A Vindima acompanha essa pesquisa desde janeiro de 2026, quando divulgou os primeiros dados preliminares do estudo, ainda em fase de coleta. O documento completo com a pesquisa está disponível gratuitamente (veja aqui).

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