Como dados climáticos e manejo sem herbicidas mudam a viticultura na Campanha Gaúcha

Salton usa estações meteorológicas, fertirrigação de precisão e plantas de cobertura para reduzir insumos e aumentar qualidade

Na Azienda Domenico, propriedade da Salton em Santana do Livramento, uma estação meteorológica posicionada no centro dos 175 hectares de vinhedos registra continuamente temperatura, umidade do ar, velocidade do vento, radiação solar e molhamento foliar. Os dados acumulados ao longo de mais de cinco anos orientam decisões agronômicas que vão do controle preventivo de doenças ao manejo da irrigação, e alimentam pesquisas em parceria com universidades. O modelo combina tecnologia de monitoramento, fertirrigação de precisão e eliminação total de herbicidas nos vinhedos próprios da empresa na Campanha Gaúcha.

O uso dos dados climáticos tem aplicação prática imediata no controle de doenças fúngicas, principal ameaça às videiras. Quando a temperatura fica entre 20°C e 25°C combinada com umidade acima de 70%, as condições se tornam favoráveis ao desenvolvimento de fungos como o míldio. É nesse momento que o sistema orienta o técnico sobre a necessidade de reaplicar defensivos preventivos. “A estação é uma excelente ferramenta, mas ela não decide tudo. O conhecimento técnico, o caminhar na propriedade e a percepção de quem está no campo, um completa o outro. É assim que chegamos a uma viticultura de excelência”, afirma Junior Marques, coordenador de viticultura e responsável pela gestão da Azienda Domenico. O resultado prático é a redução de aplicações desnecessárias, com ganhos ambientais e econômicos diretos. Em 2025, os vinhedos de Santana do Livramento foram completamente livres do uso de inseticidas.

O banco de dados climáticos da propriedade vai além do uso interno. As informações coletadas alimentam pesquisas acadêmicas que buscam compreender por que determinadas variedades se desenvolvem melhor em certas regiões e como as condições climáticas influenciam a qualidade tecnológica das uvas. “O que antes era apenas conhecimento empírico, como ‘essa cultivar tem esse potencial’, agora pode ser comprovado com dados concretos. O cruzamento entre registros climáticos e indicadores de qualidade de safra abre caminho para estudos que beneficiam toda a viticultura brasileira”, explica Marques.

Na Azienda Domenico, a irrigação por gotejamento opera de forma integrada ao monitoramento climático. Sensores instalados em diferentes profundidades do solo registram continuamente a umidade, permitindo controle preciso de tempo, volume e frequência da irrigação. A fertirrigação, técnica que agrega compostos químicos, orgânicos e biológicos diretamente pela água de irrigação, permite correções de macro e micronutrientes com menor desperdício e impacto ambiental. Em vinhedos recém-implantados, a tecnologia antecipou em até um ano o desenvolvimento das plantas. Em áreas produtivas, estendeu o ciclo de maturação em até duas semanas, com aumento na concentração de açúcares e polifenóis. A água utilizada provém de barragens próprias, coletada durante o inverno quando as videiras estão dormentes, para uso nas estações mais secas.

A eliminação total do uso de herbicidas nos vinhedos próprios da Campanha Gaúcha foi implementada a partir de 2021. A substituição foi feita por plantas de cobertura gramínea, especialmente o azevém, de ciclo vegetativo de inverno, que atuam como barreira natural contra plantas daninhas sem uso de produtos químicos. As gramíneas reduzem a erosão do solo, controlam a temperatura em períodos de calor mais intenso, diminuem a taxa de evaporação e realizam sequestro de carbono. O processo foi desenvolvido em parceria com equipes de viticultura e universidades.

Para o diretor-presidente Maurício Salton, essas práticas têm implicação direta na qualidade do produto e na longevidade da atividade. “O vinho e o espumante têm uma relação muito próxima com diversos elementos: o território, o terroir, o clima, o solo e a interação com as pessoas. Quando falamos de práticas positivas, como o cuidado com o solo, a biodiversidade e a redução de emissões, falamos tanto da qualidade do produto quanto da sustentabilidade. São práticas que trabalham a longevidade do vinhedo, a resiliência da produção diante dos efeitos climáticos e a continuidade da atividade agrícola.”

A empresa também conduz o primeiro Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa dos escopos 1 e 2 do setor vitivinícola brasileiro e avança para o escopo 3, que mapeia toda a cadeia de valor, desde a compra de insumos até a entrega do produto ao cliente final.

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