Com a aprovação da Contraloría General de la República, o Chile oficializou uma mudança em sua legislação vitivinícola. A nova categoria vinho baixo álcool permite elaborar e comercializar vinhos com graduação mínima de 8,5°, abaixo do piso de 11,5° vigente até então. O anúncio foi feito pelo ministro da Agricultura, Jaime Campos, durante as comemorações do Dia Nacional do Vinho.
A modificação não elimina o mínimo tradicional nem substitui as categorias de vinhos desalcoolizados existentes. A nova categoria abrange vinhos elaborados exclusivamente a partir de uva ou mosto parcial ou totalmente fermentado, mediante práticas enológicas autorizadas. A colheita antecipada e a produção em regiões mais ao sul do país, com climas mais frios, são dois dos caminhos técnicos para atingir essa graduação.
O decreto responde a uma queda nas exportações chilenas. Entre janeiro e maio de 2026, foram exportados 260 milhões de litros por US$ 562 milhões, com recuo de 12% em volume e 8,4% em valor em relação ao mesmo período de 2025. Para Alfonso Undurraga, presidente da Vinos de Chile, a mudança era necessária. “Não podíamos competir, não podíamos chegar a esse segmento que está crescendo.”
O segmento em questão é expressivo. O mercado global de vinho sem álcool passou de US$ 1,18 bilhão em 2023 para uma projeção de US$ 7,89 bilhões em 2032, segundo a Global Growth Insights.
A medida dividiu o setor. As críticas vieram em três direções. A primeira é o risco de diluição da identidade do vinho chileno, construída com foco em qualidade e graduação tradicional. A segunda é a dúvida sobre como as vinícolas atingirão essa graduação na prática, com suspeitas de que o caminho seja a adição de água. A terceira é a percepção de que a norma beneficia principalmente grandes grupos, deixando o pequeno produtor sem vantagem clara. O gremio Agrícola Central solicitou à Contraloría que não continuasse a tramitação enquanto não fossem comprovadas capacidades efetivas de fiscalização por parte do SAG.
Para o setor vitivinícola brasileiro, o movimento chileno tem implicações concretas. O Chile responde por 78,09 milhões de litros das importações brasileiras de vinho em 2025, a maior fatia individual. Se as vinícolas chilenas passarem a oferecer produtos de baixo teor alcoólico a preços competitivos, o Brasil entra num segmento que ainda desenvolve com iniciativas isoladas, sem a escala nem o histórico regulatório que o Chile agora formaliza. A tensão entre abrir espaço para novos estilos de produto e preservar a identidade do vinho é um dilema que outros países produtores, incluindo o Brasil, também terão de enfrentar à medida que a demanda por bebidas de menor graduação avança entre os consumidores.
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