
A geada é um dos riscos mais temidos por quem trabalha com uvas no Sul do Brasil. Uma noite fria no momento errado, durante a brotação ou a floração, pode comprometer safras inteiras. Para ajudar produtores e técnicos a antecipar esse risco, dois estados da região mantêm sistemas públicos e gratuitos de previsão e alertas agroclimáticos. Usados com consistência, essas ferramentas têm potencial de reduzir perdas significativas.
Em Santa Catarina, o Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia da Epagri, o Ciram, opera desde 2009 o Sistema Online de Previsão de Geadas. A plataforma, acessível pelo site do Ciram (veja aqui), oferece previsão com até cinco dias de antecedência e três cenários de probabilidade, máxima, média e mínima, além da intensidade esperada do fenômeno, classificada conforme a temperatura da relva. Geada ocorre abaixo de 0ºC, moderada abaixo de -2ºC e forte abaixo de -6ºC. O cálculo é feito a cada 3 km², resolução que considera o relevo irregular das regiões produtoras catarinenses.
Desde a última atualização da plataforma, a Epagri estima que o sistema tenha evitado R$ 84,7 milhões em perdas agrícolas, beneficiando atualmente 11.124 hectares de plantações. O índice de acerto nos dois primeiros dias chega a 90%, segundo a meteorologista Gilsânia de Souza Cruz, do Ciram. “É claro que há sempre possibilidade de não ocorrer, afinal, quando fazemos previsão estamos usando equações matemáticas com entrada de dados que dão um prognóstico”, explica. Para ampliar a confiabilidade, o sistema roda oito modelos de previsão simultaneamente e disponibiliza tanto a média quanto os extremos de probabilidade. A Epagri desenvolve uma nova versão da interface, com navegação aprimorada para celular, com previsão de lançamento até o início de 2027.
No Rio Grande do Sul, maior estado produtor de uvas e vinhos do país, o monitoramento é feito pelo Simagro-RS, sistema da Secretaria de Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação. A plataforma (veja aqui) alimenta-se de 98 estações meteorológicas automáticas e cobre todos os 497 municípios gaúchos com dados atualizados diariamente. Os alertas são organizados em quatro níveis, Normalidade, Leve Atenção, Atenção e Alerta, e podem ser consultados para períodos de 1, 3 ou 7 dias.
Para a vitivinicultura, o Simagro inclui um alerta específico para videiras, com previsões de risco para geada, míldio, oídio, chuva intensa e estiagem. Consultado nesta quarta-feira, 14 de outubro, o sistema indicava nível de atenção para geada nos municípios de Bom Jesus, Jaquirana e São José dos Ausentes. O Simagro também emite alertas para precipitação, ITU, chill index ovino, calor, frio e estiagem agrícola.
O pesquisador Carlos Eduardo Salles de Araújo, responsável pelo sistema da Epagri, destaca que o intervalo de cinco dias é o que torna o alerta operacionalmente útil. Sem essa antecedência, medidas como acionamento de sistemas de aspersão, cobertura de plantas ou reorganização de colheita ficam inviáveis. Variedades precoces, de alta produtividade mas com brotação antecipada, são as mais expostas quando o produtor não tem informação suficiente para agir com tempo.
A lógica vale igualmente para o RS. O Simagro foi concebido para transformar previsão meteorológica em decisão prática de manejo. Os alertas para videiras indicam risco de doenças fúngicas com base em modelos que cruzam temperatura, umidade e estágio fenológico, o mesmo princípio aplicado às geadas.
O ponto em aberto, nos dois estados, é a automação da entrega. Hoje, o produtor precisa acessar as plataformas por conta própria. Um sistema que enviasse alertas ao celular ampliaria o alcance das ferramentas e reduziria a dependência do acesso ativo, investimento que o impacto econômico já documentado sustenta.

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