por Evelin Queiroz
O vinho brasileiro nunca esteve tão presente — e, às vésperas da eleição, nunca pareceu tão ausente do debate nacional. Em 2025, o mercado brasileiro foi abastecido com cerca de 490 milhões de litros de vinhos e espumantes, alta de 8%, segundo a Ideal BI. Nossos espumantes colecionam medalhas e novas regiões produtoras surgiram no país.
O suco de uva conquistou, na OIV, em 2025, o padrão de 14° Brix, que enquadrou o suco de Vitis labrusca nas normas internacionais. Em 2026, a presidente da OIV elogiou o suco brasileiro em Bento Gonçalves, compradores da China, dos EUA e do Catar vieram a Garibaldi buscá-lo e as vendas de suco integral cresceram 53,8% no primeiro trimestre.
Ainda assim, nenhum programa de governo dos candidatos à Presidência que analisamos menciona uva, vinho, suco, vitivinicultura ou enoturismo. Este texto não é uma cobrança aos presidenciáveis, mas uma pergunta para dentro da porteira. Afinal, o que falta para que o setor entre na conversa em que se decidem as políticas da União?
O levantamento de A Vindima nos programas registrados no TSE encontrou o setor só de forma indireta, em propostas genéricas sobre seguro rural, crédito, Embrapa, Mercosul e turismo gastronômico. Os programas tratam o campo como um bloco único, e uma cadeia que reúne agricultura familiar, indústria, cultura e turismo não cabe nessa caixa — mais uma razão para o setor apresentar a própria agenda.
Quando o vinho aparece, é por tabela. Um programa promete usar o Imposto Seletivo contra “produtos nocivos à saúde”, categoria em que a lei inclui as bebidas alcoólicas — enquadramento que o setor contesta. Outro propõe campanhas para reduzir o consumo de álcool, quando a cadeia já oferece alternativas, a começar pelo suco de uva. Outros defendem baixar tarifas de importação ou acabar com regimes especiais.
Programas de governo refletem as agendas que chegam organizadas, com números e porta-vozes, às equipes que os escrevem. Se a nossa não chegou, vale perguntar por quê.
As dores do setor são conhecidas, dependem, em boa parte, de decisões federais e pesam no caixa de quem produz.
- Imposto Seletivo. O vinho entrou no chamado imposto do pecado. Simulações de entidades da cadeia produtiva estimam carga de cerca de 55% a partir de 2027, com alíquotas ainda indefinidas. O imposto vale também para o importado, mas chega no momento em que a tarifa sobre o vinho europeu começa a cair.
- Acordo UE–Mercosul. Desde maio, a tarifa de até 35% sobre o vinho europeu cai gradualmente. No segundo trimestre de 2026, as vendas de nacionais recuaram 14% e as de importados subiram 15%.
- Deriva de herbicidas. Perdas estimadas em R$ 210 milhões no Rio Grande do Sul entre 2018 e 2025, segundo o Consevitis-RS. Quem perde o vinhedo raramente consegue provar a origem do dano, e a resposta mais firme veio da Justiça, não de uma política nacional.
- Clima extremo. Granizo, geadas fora de época e as enchentes de 2024 expuseram um seguro rural que ainda cobre mal culturas perenes como a videira.
- Pequena propriedade. Na vindima, contratar temporários por poucas semanas exige registros, exames e obrigações; vender o próprio vinho exige licenças e laudos. Para quem é pequeno, cumprir as regras custa proporcionalmente mais — assim como a substituição tributária e a formalização do vinho colonial.
- Produto nacional. Em 2024, o importado respondeu por mais da metade do valor do mercado, e instrumentos federais como compras públicas e promoção comercial seguem pouco usados a favor do vinho e do suco brasileiros.
O setor não é invisível em Brasília. Em março, Anprovin e ABDI inauguraram, no Distrito Federal, o primeiro laboratório de análise de vinhos do Centro-Oeste, que promete reduzir em até 50% o custo das análises fora do eixo Sul. Há interlocução no Ministério da Agricultura, audiências e conversas constantes com deputados e senadores. Mas são, em geral, respostas pontuais a demandas pontuais, não uma política nacional com metas e orçamento.
Outras cadeias produtivas chegam às campanhas com agendas próprias, números e porta-vozes reconhecidos. A vitivinicultura ainda fala em muitas vozes — entidades gaúchas, mineiras, do Nordeste e do Cerrado, de produtores, cooperativas e indústria. Falta um documento com três ou quatro prioridades que qualquer equipe de campanha leia em dez minutos.
O setor já cresceu em qualidade, em área plantada e em reconhecimento. O próximo passo é crescer em voz. Não necessariamente gritar mais alto, mas falar junto, com clareza e na hora certa.
A eleição de 4 de outubro define quem conduzirá, a partir de 2027, o Imposto Seletivo, o acordo com a União Europeia e o seguro rural. A pergunta que fica para o setor é: quando essas decisões chegarem à mesa, vamos estar sentados nela?
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