Bactéria da Antártida promete reduzir dano de geada tardia na videira

Empresa francesa testa em vinhedos da Alsácia, Borgonha e Vale do Loire um produto biológico feito com bactéria isolada em solo antártico, com aprovação prevista para o fim do ano

 

Uma empresa francesa está testando, em vinhedos da Alsácia, Borgonha e Vale do Loire, um produto biológico feito com bactéria isolada em solo antártico, com promessa de reduzir em até 80% os danos causados por geada tardia. A informação foi divulgada pela revista francesa Vitisphere. O produto ainda está em fase de teste, sem aprovação regulatória, mas o problema que ele tenta resolver é real e conhecido também no Brasil.

A empresa por trás é a Pewman Innovation Europe, fundada em 2024 pelo microbiologista chileno Isaac Bugueno, com sede em Estrasburgo. A bactéria usada, batizada de Pseudomonas pewmanensis, foi isolada em expedições da própria empresa ao solo antártico.

Segundo a Pewman, pulverizada na folha, a bactéria ocupa o espaço dos micro-organismos que normalmente ajudam o gelo a se formar na planta, um fenômeno conhecido como nucleação de gelo. Ela também produz açúcares que ajudariam a videira a responder melhor ao frio, e a formulação inclui biopolímeros que criam uma película isolante na folha. A empresa diz que a proteção chega a -4°C por até 12 horas, com aplicação a cada 14 dias entre março e abril, e que a bactéria se decompõe no solo depois de um tempo.

Vale reforçar que esses números vêm de testes da própria empresa, ainda não publicados de forma independente. A expectativa é obter aprovação na França até o fim do ano.

Para entender o problema que essa solução tenta resolver, ouvimos o engenheiro agrônomo Paulo Tesser, que atua com cooperativas produtoras. Segundo ele, na região da Serra Gaúcha, o combate ativo à geada tardia praticamente não acontece. Os métodos mais conhecidos esbarram em limitações práticas: queima de fogo e fumaça, pouco eficaz na experiência local; cata-vento, que funciona mas tem custo alto de instalação; aspersão, mais usada em fruticultura, que exige boa infraestrutura elétrica e reservatório de água; e cobertura plástica, mais viável em uva de mesa, que já tem estrutura pronta para isso.

Sobre soluções biológicas como essa da Pewman, Tesser nunca ouviu falar de nada parecido funcionando na prática. Ele cita que já existem no mercado produtos foliares que prometem alterar o ponto de congelamento da seiva, mas que, segundo sua experiência, ainda não entregam resultado real.

Esse retrato ajuda a situar o anúncio francês. Geada tardia já causou perdas grandes na Europa nesta safra, e os métodos disponíveis hoje pesam no bolso ou na infraestrutura do produtor. É esse vazio que uma solução biológica bem-sucedida poderia ocupar, mas ainda vale esperar dados independentes antes de qualquer expectativa mais concreta por aqui. A Pewman também desenvolve, em paralelo, uma versão da bactéria voltada para estresse hídrico e calor, o que interessa ainda mais diretamente à realidade de boa parte da viticultura brasileira.

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