Minuta de decreto deve regulamentar lei contra comércio clandestino de vinhos e espumantes no RS em até 30 dias

Setor vitivinícola pressiona por medidas de fiscalização diante de prejuízos que podem ultrapassar R$ 2 bilhões por ano
Foto: Gustavo Mansur

 

O governo do Rio Grande do Sul e entidades representativas das cadeias produtivas se reuniram nesta quinta-feira (18), no Palácio Piratini, em Porto Alegre, para discutir a aplicação da Lei nº 16.326/2025, que estabelece sanções a estabelecimentos envolvidos na comercialização de vinhos, espumantes e cigarros de origem ilegal. O encontro, conduzido pelo secretário-chefe da Casa Civil, Artur Lemos, definiu o prazo de 30 dias para a apresentação da minuta do decreto que regulamentará a lei.

Participaram da reunião representantes das Secretarias da Fazenda e da Segurança Pública, da Procuradoria-Geral do Estado e de entidades como Consevitis-RS, Comissão Interestadual da Uva, Fetag-RS, SindiTabaco e Afubra. A expectativa é que a regulamentação seja aprovada até outubro, abrindo caminho para a realização das primeiras ações práticas ainda neste ano, como campanhas de conscientização e operações conjuntas de fiscalização.

Segundo o deputado Elton Weber (PSB), autor da lei, o objetivo é criar entraves à comercialização de produtos ilegais que impactam diretamente o setor formal.

“Essa lei não vai resolver tudo, mas vai atrapalhar bastante quem vive da contravenção. Precisamos colocar pedras no caminho de quem está fora da legalidade”, afirmou Weber.

O subsecretário da Receita Estadual, Ricardo Neves Pereira, destacou que o governo poderá adotar práticas já aplicadas em parceria com entidades como a Fecomércio, ampliando a identificação geográfica de pontos de venda suspeitos. A legislação também prevê a participação da Polícia Federal, especialmente no combate ao descaminho de mercadorias vindas de países do Mercosul.

Prejuízos bilionários

O avanço do mercado clandestino preocupa a cadeia vitivinícola. De acordo com dados da Receita Federal, entre 2021 e 2023 foram apreendidos, em média, R$ 57,6 milhões em vinhos ilegais por ano — valor superior às importações oficiais de países como Uruguai, Estados Unidos, África do Sul, Austrália e Alemanha.

No entanto, estudo do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (IDESF) estima que as apreensões representem apenas 5% a 10% do volume total que entra irregularmente no Brasil. Isso significa que o mercado clandestino pode movimentar mais de R$ 1 bilhão anuais em valor FOB, ultrapassando R$ 2 bilhões no varejo quando somados impostos sonegados e margens de comercialização.

“Estamos diante de um problema que vai muito além da concorrência desleal. O contrabando de vinhos atinge a arrecadação de impostos, desestrutura o mercado formal e compromete milhares de empregos que poderiam ser gerados no Brasil. O consumidor também está exposto a riscos, pois há registros de apreensões de marcas com volumes maiores do que a própria produção oficial nos países de origem, evidenciando fraudes e falsificações”, afirmou Eduardo Piaia, diretor-executivo do Consevitis-RS.

Os fluxos do vinho contrabandeado seguem as mesmas rotas de outros produtos ilícitos, com forte concentração no oeste e sudoeste do Paraná e no oeste de Santa Catarina, em cidades como Cascavel e Pato Branco (PR). O transporte, segundo autoridades, é realizado principalmente em veículos de passeio, que abastecem gradualmente os centros de distribuição.

“O que se percebe é uma estrutura criminosa altamente organizada, que utiliza inclusive veículos roubados, batedores e olheiros. Diversos relatórios já mostraram a ligação direta entre o comércio ilegal de vinhos e grandes organizações do crime, inclusive ligadas ao tráfico de drogas. Isso transforma o vinho em mais uma moeda de capitalização para grupos criminosos”, alertou Piaia.

Expectativa do setor

A lei é vista como um avanço, mas a aplicação prática será decisiva para que os efeitos cheguem à cadeia produtiva. “Precisamos da união de todas as esferas para que a lei não fique apenas no papel. A clandestinidade é um problema tributário, comercial, de saúde e de segurança pública”, reforçou o deputado Weber.

O setor vitivinícola espera que a regulamentação dê mais segurança jurídica e fortaleça as ações de fiscalização, protegendo cantinas, vinícolas, supermercados, restaurantes e boutiques de vinhos que atuam dentro da legalidade.

Quem acompanha o Portal A Vindima por e-mail terá acesso antecipado a artigos exclusivos sobre os temas mais relevantes da vitivinicultura brasileira! Cadastre-se no campo ‘Receba as notícias por e-mail e fique atualizado’ no final desta página!

Compartilhe:

Economista e sommelier Mauro Salvo questiona narrativas do setor sobre impostos, importados e poder de compra do consumidor...
Filtro tangencial da JUCLAS combina alta capacidade de processamento com preservação das características organolépticas do vinho...
Pesquisador chileno apresenta no EnoMeeting técnicas que reduzem ou eliminam aditivos químicos no vinho...