O Parlamento Europeu avançou na semana passada com um conjunto de medidas de saúde pública que inclui alertas obrigatórios em bebidas alcoólicas, restrições de marketing e proteções mais rígidas para jovens. A decisão do Comitê de Saúde Pública aconteceu no mesmo dia em que o setor vitivinícola europeu promovia, dentro do próprio Parlamento, um debate com cientistas sobre se o vinho pode fazer parte de um estilo de vida saudável. Os dois movimentos simultâneos mostram a tensão que define o momento regulatório europeu para o vinho.
O texto aprovado pelo comitê prevê informações de saúde claramente visíveis nas embalagens, revisão da estratégia europeia sobre álcool e medidas para reduzir a exposição ao marketing, além de uma meta de consumo zero para menores. O comitê adotou, no entanto, uma linguagem mais restrita, limitando referências ao “uso nocivo” do álcool, numa posição que pode aliviar parte da pressão sobre o setor vitivinícola à medida que Bruxelas continua debatendo rotulagem, marketing e percepção do consumidor.
O debate promovido pelo Comité Européen des Entreprises Vins, o CEEV, trouxe ao Parlamento o argumento de que o vinho não pode ser avaliado fora do contexto em que é consumido. O Dr. Gianni Pes, pesquisador pioneiro das Zonas Azuis, descreveu o modelo sardo em termos que evitam qualquer conclusão simplificada. “Em Sardenha, a longevidade excepcional surgiu dentro de um modo de vida inteiro: atividade física diária, alimentação tradicional, laços familiares e comunitários fortes, interação social e convivialidade. O vinho esteve tradicionalmente presente nesse estilo de vida, geralmente consumido com moderação e durante as refeições, mas é um elemento dentro de um padrão muito mais amplo”, afirmou. Marzia Varvaglione, presidente do CEEV, que representa mais de 90% das exportações europeias de vinho, afirmou que a entidade reconhece os riscos do consumo nocivo, mas defende que políticas públicas eficazes precisam distinguir padrões prejudiciais de consumo do vinho bebido com moderação dentro de um estilo de vida equilibrado.
O processo legislativo já produziu decisões concretas. Em fevereiro de 2026, o Parlamento Europeu aprovou o Wine Package, que entre outras medidas estabelece que vinhos com até 0,05% de álcool serão rotulados como “alcohol-free”, enquanto vinhos com teor reduzido receberão o rótulo “reduced-alcohol”. O pacote também isenta vinhos exportados para países terceiros da obrigação de incluir lista de ingredientes e informação nutricional exigidas dentro da União Europeia.
As regras europeias de rotulagem afetam tanto as exportações brasileiras para a União Europeia quanto a forma como os vinhos importados europeus serão apresentados ao consumidor brasileiro. A Irlanda, que havia aprovado alertas de saúde obrigatórios para todas as bebidas alcoólicas com vigência em maio de 2026, adiou a medida para 2028 após forte resistência do setor e de outros países europeus. O adiamento irlandês mostra que o debate ainda está aberto, mas a direção do processo regulatório europeu, em direção a mais informação de saúde nos rótulos, está traçada. Vinícolas e importadores brasileiros que operam ou pretendem operar no mercado europeu precisam acompanhar esses desdobramentos de perto.
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