Vinho sem álcool cresce até 14% ao ano: o Brasil está preparado para esse mercado?

Governo australiano financia infraestrutura compartilhada de desalcoolização e mostra caminho que o setor brasileiro ainda não percorreu
Brian Freeman, Steph Cooke (deputada federal) e Marcelle Freeman. Foto: Divulgação

 

Na Austrália, o governo do estado de Nova Gales do Sul acaba de investir dois milhões de dólares australianos em uma vinícola para instalar um equipamento que remove o álcool do vinho. A ideia não é só ajudar aquela vinícola. É criar uma estrutura que todos os produtores da região possam usar, sem que cada um precise comprar o equipamento por conta própria. O objetivo é posicionar a região como referência num segmento em expansão: projeções indicam crescimento anual entre 7,9% e 14% até 2030, segundo Wine Paris e Allied Market Research.

“É possível produzir vinhos de qualidade muito superior se não for necessário transportá-los por longas distâncias. Também estamos instalando uma unidade de engarrafamento, o que pode ajudar os produtores locais”, afirmou Marcelle Freeman, da Freeman Vineyards. O pai dela, Dr. Brian Freeman, fundador da vinícola, aponta a mudança de comportamento como o motor do investimento. “A geração mais jovem está se abstendo do álcool. A geração mais velha está bebendo muito menos. E a região tem uvas de altíssima qualidade, então podemos produzir um produto excelente também na linha sem álcool.”

No Brasil, a procura por vinhos sem álcool e com baixo teor alcoólico vem aumentando. O mercado global de vinhos desalcoolizados movimentou US$ 2,3 bilhões em 2025 e pode chegar a US$ 4,4 bilhões até 2030, crescendo quase três vezes mais rápido que o mercado de vinhos tradicionais, segundo dados da Allied Market Research. Vinícolas gaúchas como Luiz Argenta, Aurora e Campos de Cima já lançaram produtos nessa linha e investiram em equipamentos específicos para isso, por conta própria, sem apoio público direcionado para esse fim.

O vinho sem álcool começa igual ao vinho tradicional. A uva fermenta normalmente, desenvolvendo aroma, cor e estrutura. Depois disso, o álcool é retirado por meio de equipamentos especializados que preservam o sabor e o aroma da bebida. No Brasil, o produto não pode ser chamado legalmente de vinho, mas de fermentado de uva desalcoolizado. É uma bebida diferente, que atende um público que o vinho tradicional não alcança, como gestantes, motoristas, pessoas com restrições médicas, atletas e consumidores que preferem não beber álcool.

O equipamento para remover álcool do vinho é caro demais para a maioria dos pequenos e médios produtores comprarem sozinhos. A tecnologia de osmose reversa ou destilação a vácuo exige investimento que fica fora do alcance de vinícolas familiares e cooperativas menores. Foi justamente aí que o governo australiano entrou, financiando uma unidade compartilhada que serve a toda uma região produtora. No Brasil, o setor conta com instrumentos de financiamento setorial como o Fundovitis para os gaúchos, o Pronaf Agroindústria e linhas do BNDES que já financiam inovação e infraestrutura para a vitivinicultura. Nenhum deles foi direcionado especificamente para a desalcoolização até agora.

O Wines of Brazil, projeto que promove o vinho brasileiro no exterior em parceria com a ApexBrasil, já incluiu o espumante sem álcool como aposta para o próximo ciclo de exportações, reconhecendo que esse produto abre mercados no Oriente Médio e na Ásia onde o vinho tradicional enfrenta restrições. A demanda existe. Os instrumentos de financiamento existem. A tecnologia já está sendo adotada por algumas vinícolas brasileiras. O passo que ainda não foi dado é reunir essas três condições num investimento público direcionado, como fez a Austrália.

 

 

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