Vinhos de inverno crescem 15% e ampliam fronteira no país

Dupla Poda já é usada por 56 vinícolas fora do eixo Sul e projeta triplicar produção até 2029

 

A vitivinicultura brasileira ganhou, nas últimas duas décadas, uma nova fronteira de produção fora do eixo tradicional formado pela Serra Gaúcha e pelo Vale do São Francisco. A safra de inverno de 2026 confirma essa consolidação: a técnica conhecida como Dupla Poda, hoje empregada por 56 vinícolas associadas à Anprovin (Associação Nacional de Produtores de Vinho de Inverno) em regiões do Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, projeta crescimento de 15% na produção em relação ao ano anterior, depois de fechar 2025 com 1,49 milhão de unidades.

O sistema, desenvolvido a partir de pesquisas iniciadas em 2000 pelo pesquisador mineiro Murilo Regina, consiste na inversão do ciclo vegetativo da videira por meio de duas podas anuais. Na prática, isso desloca a colheita para o período de inverno seco, quando a maior insolação e a menor incidência de chuvas favorecem a sanidade das uvas e a maturação fenólica — condições associadas à elaboração de vinhos finos de alta gama. O modelo criou, assim, um calendário de colheita concentrado entre junho e agosto, distinto do calendário das regiões produtoras tradicionais.

A distribuição geográfica da produção evidencia a adaptabilidade da técnica a diferentes climas e altitudes. No Centro-Oeste, vinícolas de Goiás e do Distrito Federal — caso da Vinícola Brasília — colhem entre julho e agosto variedades como Viognier, Sauvignon Blanc, Merlot, Cabernet Franc, Syrah, Chardonnay, Assyrtiko, Vermentino, Grenache, Sangiovese, Nebbiolo, Marselan, Tempranillo, Malbec e Pinot Noir. Na Chapada Diamantina, na Bahia, a colheita começa em junho, com Sauvignon Blanc, Pinot Noir, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. Já no Sudeste — São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo —, a colheita se estende de junho a julho, e vinícolas paulistas e mineiras já alcançaram notas superiores a 90 pontos em guias especializados com castas como Syrah, Sauvignon Blanc, Cabernet Franc, Pinot Noir e Malbec.

Os números da safra de 2025 mostram a Syrah como a variedade dominante, com 631.267 unidades produzidas — 42% do total —, seguida por Sauvignon Blanc (17%), Cabernet Franc (12%) e Cabernet Sauvignon (10%). Entre as variedades com volume relevante também aparecem Malbec, Marselan, Pinot Noir, Chardonnay, Merlot, Tempranillo, Viognier, Touriga Nacional, Moscato e Chenin Blanc — um espectro amplo, que reforça o caráter experimental e diversificado dessas regiões em relação aos polos vitícolas consolidados.

Outro ponto que chama atenção no setor é o perfil predominantemente familiar das propriedades: 90% das vinícolas associadas à Anprovin se encaixam nesse perfil, em áreas historicamente ocupadas por café, grãos e pecuária leiteira. A vitivinicultura de precisão surge, nesse contexto, como alternativa de diversificação produtiva e de sucessão familiar — um movimento que tem precedentes em outras regiões do país onde a uva se tornou rota de agregação de valor para propriedades de pequeno e médio porte.

A estruturação do setor também passou por investimentos em controle de qualidade. A Anprovin mantém, em parceria com a ABDI, um centro de análises e pesquisa em Brasília, com aporte de R$ 3,4 milhões, responsável pela padronização dos produtos. Um selo próprio da associação atesta altitude, lote e origem de cada vinho — um mecanismo de rastreabilidade que tende a ganhar peso conforme o segmento de vinhos de inverno avança em reconhecimento dentro e fora do país. Atualmente, a associação contabiliza 1,49 milhão de pés de videira e 1,1 milhão de garrafas produzidas, com meta de triplicar essa capacidade até 2029 — um indicativo de que o que começou como experimento técnico regional caminha para se firmar como segmento próprio dentro da vitivinicultura brasileira.

 

 

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