Festa da Uva inclui uva orgânica pela primeira vez

Distribuição inédita valoriza produção agroecológica e amplia debate sobre mercado
Uva orgânica distribuída na Festa da Uva – Foto: Pedro Henrique/Dinâmica

Pela primeira vez em sua história, a Festa Nacional da Uva incluiu na programação oficial a distribuição de uvas orgânicas ao público. A iniciativa marca um reconhecimento simbólico e institucional à produção agroecológica da Serra Gaúcha e insere o tema na principal vitrine da viticultura brasileira.

Nesta edição, cerca de oito toneladas de uva orgânica foram adquiridas dentro de um volume total aproximado de 130 toneladas distribuídas durante o evento. A medida ocorre em um contexto de expansão gradual da produção orgânica na região, mas ainda com desafios estruturais de mercado, escala e fomento público.

Para produtores, a presença na Festa da Uva representa mais do que visibilidade. Trata-se de um espaço estratégico de posicionamento diante do consumidor e da cadeia produtiva.

Produção cresce, mas mercado desafia

Carla Rodrigues Suliani, viticultora de São Marcos (RS), iniciou a transição para o sistema orgânico em 2013. Hoje, a propriedade produz cerca de 25 toneladas anuais de Niágara branca e rosada, destinadas exclusivamente ao consumo in natura.

Segundo ela, a principal motivação foi a saúde do agricultor e da família. “Quem mais se expõe aos defensivos é o produtor. A gente optou por um sistema que preserva nossa saúde e permite agregar valor ao produto”, afirma.

A comercialização, no entanto, exige estratégia. A maior parte da produção é escoada para Curitiba, São Paulo e Florianópolis. “Aqui na região já há mais produtores orgânicos. Para não competir no mesmo mercado, buscamos outros estados”, explica.

O desafio, segundo Carla, está no equilíbrio entre menor produtividade e maior valor agregado. Enquanto propriedades convencionais podem colher mais de 60 toneladas por hectare, a produção orgânica gira em torno de 22 a 25 toneladas. “O risco é não encontrar mercado e ter que vender como convencional”, pontua.

Agricultura familiar e sustentabilidade

Em Caxias do Sul, o viticultor Vitor Augusto Pistorello, 40 anos, trabalha com uva orgânica desde 2014. A propriedade familiar, atualmente na quarta geração, produz cerca de 20 toneladas anuais de Niágara rosada certificada.

Ele destaca que o sistema orgânico se alinha a um conceito mais amplo de sustentabilidade. “Reduzimos drasticamente o uso de defensivos e trabalhamos com equilíbrio da planta, não com máxima produtividade”, afirma.

Para Vitor, o maior entrave está na disputa por espaço nas gôndolas. “O consumidor valoriza, mas na hora da compra olha o preço. Como a escala é menor, nossa margem também é mais limitada”, observa.

Ainda assim, ele considera que ações como a da Festa da Uva são estratégicas. “É um passo importante. Quando o público prova e percebe diferença de sabor e qualidade, cria-se uma relação de confiança. Isso fortalece o mercado no longo prazo.”

Reconhecimento institucional

O diretor executivo do Consevitis-RS, Eduardo Piaia, avalia que a inclusão da uva orgânica no evento representa um momento de valorização. “É a primeira vez que a Festa distribui produção orgânica. É um reconhecimento ao trabalho desafiador desses produtores, especialmente em uma região como a Serra Gaúcha, onde o manejo já é complexo”, afirma.

Segundo ele, a medida reforça a diversidade da viticultura regional e amplia a percepção sobre diferentes sistemas de produção dentro da cadeia.

Fomento e políticas públicas

A discussão sobre mercado e viabilidade econômica passa também pelo papel das políticas públicas. Estados como o Paraná, segundo produtores, apresentam maior estímulo ao consumo e à certificação de orgânicos.

No Rio Grande do Sul, o lançamento do PNAE Agroecológico durante a Festa da Uva, nesta quinta-feira (26) sinaliza avanço institucional. O programa busca fortalecer a agricultura familiar e ampliar a presença de alimentos agroecológicos na alimentação escolar. A iniciativa beneficiará diretamente 90 famílias agricultoras em municípios da Serra e da Região Metropolitana.

O PNAE já prevê percentual mínimo de compras da agricultura familiar para a merenda escolar. A vertente agroecológica amplia essa diretriz, estimulando a transição produtiva e garantindo mercado institucional.

Perspectivas

Embora a produção orgânica ainda represente parcela menor da viticultura regional, o escoamento para fora do Rio Grande do Sul é uma característica recorrente entre os produtores. A demanda mais consolidada em grandes centros urbanos impulsiona a comercialização interestadual.

Para o setor, a visibilidade na Festa da Uva pode ampliar o consumo interno e estimular novos produtores a considerar a transição, desde que haja segurança de mercado e políticas de fomento.

A inclusão da uva orgânica na principal celebração da vitivinicultura brasileira consolida um debate que ultrapassa o consumo pontual e dialoga com temas estruturais: sustentabilidade, saúde do produtor, diversificação de renda e fortalecimento da agricultura familiar.

Para a cadeia produtiva da uva, o gesto é simbólico — mas também estratégico.

 

Foto: Pedro Henrique/Dinâmica

 

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