Por Evelin Queiroz
A vitivinicultura evoluiu em qualidade, técnica e reconhecimento. Avançou em terroir, em identidade e em posicionamento de mercado. Mas um dado recente indica que há um ponto sensível ainda pouco discutido no setor, a forma como os negócios são estruturados.
Pesquisa conduzida pela BRAGA Academia, com profissionais de diferentes países de língua espanhola, mostra que 87% dos negócios do vinho dependem diretamente do proprietário para funcionar. Em parte significativa desses casos, a operação não se sustenta sem a presença do dono.
O número chama atenção não apenas pelo percentual, mas pelo que ele representa. Trata-se de um setor que, apesar de sua sofisticação produtiva, ainda carrega uma estrutura fortemente centralizada. A figura do proprietário segue sendo o eixo de decisões, de operação e, muitas vezes, de sobrevivência do negócio.
Há valor nisso. A presença do produtor está diretamente ligada à identidade do vinho, à história da marca e à relação com o consumidor. Em muitos casos, é essa proximidade que sustenta a reputação construída ao longo dos anos. O problema surge quando essa centralização deixa de ser diferencial e passa a ser limitação.
Negócios que dependem exclusivamente de uma pessoa enfrentam dificuldades naturais para crescer. Delegar se torna um desafio, estruturar processos exige tempo e afastar-se da operação pode representar risco. A empresa passa a funcionar enquanto o proprietário está presente, e não como um sistema capaz de se sustentar.
A consequência é uma operação mais lenta, menos previsível e mais vulnerável. Em um mercado que exige resposta rápida, consistência e estratégia, essa dependência pode comprometer competitividade.
O estudo também revela outro ponto importante. Quase metade dos negócios revisa seus indicadores apenas quando surge um problema. Isso indica uma gestão reativa, baseada na correção e não na antecipação. Ao mesmo tempo, a ausência de estratégias estruturadas de fidelização mostra que muitos ainda operam focados na venda imediata, sem construir recorrência.
O setor do vinho sempre formou bons técnicos. Enólogos, sommeliers e profissionais com profundo conhecimento de produto. O desafio agora parece ser outro. Transformar esse conhecimento em estrutura de negócio.
Isso não significa romper com a essência da vitivinicultura. Significa organizá-la. Criar processos, distribuir responsabilidades, estabelecer estratégias claras e permitir que o negócio funcione além da presença do proprietário.
Em um cenário de maior competição, custos pressionados e mudanças no consumo, a gestão deixa de ser um detalhe e passa a ser parte central da sustentabilidade do setor.
O vinho carrega história, cultura e identidade. Para seguir avançando, precisa também fortalecer aquilo que sustenta qualquer atividade econômica. A capacidade de se organizar como negócio.
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