Europa mira Brasil para expandir exportação de vinhos

Acordo UE–Mercosul entra em vigor e revela estratégia das vinícolas europeias

A entrada em vigor provisória do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, neste 1º de maio de 2026, marca um novo momento para o comércio internacional do vinho, e revela como as empresas europeias enxergam o Brasil dentro dessa estratégia global.

Para o Comitê Europeu das Empresas de Vinho (CEEV), entidade que representa mais de 90% das exportações do setor na União Europeia, o acordo não é apenas um avanço diplomático, mas uma oportunidade concreta de expansão. “Depois de mais de 25 anos, o acordo passa da ambição para a realidade. Em um mundo de tensões comerciais, diversificar mercados deixou de ser uma escolha e passou a ser uma necessidade”, afirmou a presidente do CEEV, Marzia Varvaglione.

Os números ajudam a dimensionar esse movimento. Em 2024, as exportações de vinhos europeus para o Mercosul somaram 238 milhões de euros, apenas 1,3% do total global do bloco, evidenciando, na avaliação das empresas, um mercado ainda subexplorado. Dentro desse volume, o Brasil concentra a maior fatia, com 205 milhões de euros, consolidando-se como principal destino na região.

A leitura europeia é direta. Trata-se de um mercado com escala, crescimento e espaço para avanço. Com cerca de 270 milhões de consumidores no Mercosul e uma classe média em expansão, especialmente no Brasil, o acordo cria as condições para o que o próprio setor classifica como “um salto no desenvolvimento de mercado”.

Um dos principais entraves até aqui, segundo o CEEV, sempre foi o custo de acesso. As tarifas sobre vinhos europeus chegam a até 35% na Argentina e 18% no Brasil, Paraguai e Uruguai, o que gerou um impacto superior a 43,7 milhões de euros apenas em 2024. Com o acordo, essas taxas passam a ser eliminadas de forma gradual, reduzindo a desvantagem competitiva frente a outros países exportadores.

“Finalmente poderemos competir em condições equivalentes no Mercosul, encerrando uma desvantagem histórica para as empresas europeias”, afirmou o secretário-geral do CEEV, Ignacio Sánchez Recarte.

Além da questão tarifária, o setor europeu destaca outros avanços considerados estratégicos, como a simplificação de processos de importação, a redução de barreiras técnicas e a harmonização de exigências regulatórias. Na prática, isso significa menos burocracia, maior previsibilidade e maior fluidez no comércio.

Outro ponto sensível é a proteção de origem. O acordo prevê o reconhecimento de 145 indicações geográficas europeias no Mercosul, incluindo nomes consolidados como Champagne, Porto e Prosecco. Para o setor, trata-se de um elemento central na construção de valor e posicionamento no mercado internacional.

“O acordo cria um ambiente mais estável, previsível e competitivo para empresas de todos os portes”, reforça o material institucional do CEEV, ao destacar que o objetivo vai além de aumentar volume e passa pela construção de presença e reputação no longo prazo.

A estratégia também está inserida em um contexto mais amplo. Diante de mudanças no consumo global e maior concorrência entre países produtores, as vinícolas europeias buscam diversificar destinos e reduzir a dependência de mercados tradicionais. Nesse cenário, o Mercosul, e especialmente o Brasil, surge como uma das principais apostas.

O movimento, no entanto, não ocorre isoladamente. A entrada em vigor provisória do acordo ainda convive com etapas de ratificação e mecanismos de salvaguarda, que poderão ser acionados em caso de impacto sobre setores produtivos locais.

O Mercosul deixou de ser apenas um mercado complementar e passa a ocupar um papel estratégico no mapa global do vinho. E o Brasil, pela sua dimensão e potencial de consumo, está no centro dessa disputa.

 

Quem acompanha o Portal A Vindima por e-mail terá acesso antecipado a artigos exclusivos sobre os temas mais relevantes da vitivinicultura brasileira! Cadastre-se no campo ‘Receba as notícias por e-mail e fique atualizado’ no final desta página!

Compartilhe:

Deixe um comentário

Pesquisa internacional revela dependência do proprietário e aponta desafio de gestão no setor...
Iniciativa qualifica produção, aumenta renda e valoriza a uva em Colombo...
Exportação, compradores e indicações geográficas ganham força na estratégia do setor...