Bordeaux cria novo Claret e AB InBev aposta em proteínas para responder à queda no consumo

Movimentos estratégicos no vinho e na cerveja mostram como grandes produtores se adaptam às novas gerações e ao mercado em transformação
Foto: Emma Tournier

 

O mercado de vinhos e bebidas alcoólicas atravessa uma transformação que já pode ser sentida em determinados segmentos e regiões. A disseminação dos medicamentos emagrecedores, a busca por produtos mais saudáveis pelas novas gerações, o crescimento das igrejas evangélicas e o surgimento de gerações de abstêmios vêm pressionando produtores a repensar seus produtos e estratégias. A isso se somam dificuldades econômicas, aumento de custos e pressão tributária, que tornam o preço um fator cada vez mais decisivo na decisão de compra. Dois movimentos recentes mostram como produtores com visão estratégica estão respondendo a esse cenário.

Bordeaux, considerada a mais importante e tradicional região vinícola do mundo, lançou neste ano uma nova categoria sob a denominação Claret. Conhecida por seus vinhos de corte com Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot, encorpados, tânicos e de médio a alto teor alcoólico, a região francesa tomou um caminho totalmente diferente com o novo produto. Ao recuperar a ideia original do Claret medieval, um tinto mais leve, fresco, frutado e de menor extração de taninos, Bordeaux busca responder às mudanças climáticas, às novas tendências de consumo e à necessidade de atrair consumidores mais jovens.

Foto: Emma Tournier

O novo Claret pode ser elaborado com qualquer variedade tinta autorizada em Bordeaux, sem passagem por barricas de carvalho, com perfil aromático centrado em frutas vermelhas frescas, graduação mínima de 11°, até 7 g/L de açúcar residual e possibilidade de consumo levemente refrigerado. A nova regulamentação vale para vinhos a partir da safra 2025. Os produtos elaborados pelas regras anteriores seguem sendo comercializados normalmente, mas sem o termo Claret nos rótulos futuros. A iniciativa encontrou resistência no Reino Unido, onde o nome Claret já identificava há cerca de dois séculos os tradicionais tintos de Bordeaux. A crítica não veio das características do produto, mas do uso do nome histórico para identificar um estilo totalmente diferente.

No segmento da cerveja, a AB InBev, maior cervejaria do mundo e dona de marcas como Stella Artois e Corona, segue direção semelhante. A empresa aposta em embalagens menores, cervejas com adição de proteínas e eletrólitos e amplia sua atuação para além da cerveja tradicional. O objetivo é aumentar o consumo entre pessoas que bebem com pouca frequência, incluindo consumidores atentos ao orçamento. As cervejas sem álcool de diferentes sabores e com adição de proteínas buscam ocupar espaço nas prateleiras das bebidas energéticas e funcionais.

Os dois movimentos partem do mesmo diagnóstico. O consumidor mudou e o produto precisa acompanhar. Para o setor vitivinícola brasileiro, que enfrenta os mesmos desafios de novas gerações com hábitos diferentes e mercado interno competitivo, os exemplos de Bordeaux e AB InBev oferecem referências concretas sobre como grandes produtores estão escolhendo se adaptar.

 

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