A Cooperativa São João, de Farroupilha, comunicou aos seus associados um conjunto de medidas que impõem limites à produção e ao recebimento de uvas na próxima safra. A decisão é a resposta prática a uma crise de estoque que vinha sendo construída há mais de um ano e que agora exige ação concreta.
A cooperativa tem capacidade de armazenagem para 28 milhões de litros e atualmente mantém 22,4 milhões de litros estocados, além do volume já engarrafado. A projeção é comercializar 7 milhões de litros até janeiro de 2027. Para chegar à próxima safra com um nível de estoque seguro, a cooperativa precisaria vender 15 milhões de litros no período, 8 milhões a mais do que consegue projetar com os contatos de mercado que tem. “Pelos contatos que temos, não iremos conseguir chegar neste volume de venda”, diz a nota da entidade.
A pressão não vem só do estoque atual, a safra 2026/2027 promete ser robusta. “Esse ano nós recebemos 31 milhões e meio de quilos de uva. A próxima safra, pelo que está se mostrando, pelo inverno frio, pelas parreiras bonitas, nós achamos que vamos ter uma safra de mais ou menos 31, 32 milhões de quilos de uva. E por isso nós estamos tomando precaução de avisar o associado e tentar reduzir a produção”, disse o diretor administrativo Ismar Pasini. O limite de recebimento projetado para a próxima safra é de 22 a 23 milhões de quilos, praticamente 10 milhões a menos do que o recebido este ano.
As medidas anunciadas pelo presidente Valderiz Possa, em nota, incluem limite de produção por área para todas as uvas, adoção de grau mínimo para pagamento e recebimento, suspensão de financiamento para novas áreas e mudas. Técnicos farão visitas para monitorar adubações, podas e maturação. “Não se aconselha a utilização de adubos nitrogenados, desta forma a uva terá mais qualidade e capacidade de não estragar rapidamente”, informa o documento.
O cenário de mercado que motivou essas decisões é global. As empresas de São Paulo, clientes tradicionais de vinho a granel da Cooperativa São João, estão sem comprar. “Tem vinho pago do ano passado ali na cooperativa e que eles não carregaram. E infelizmente não sei para onde correr. Eu estive na Espanha em maio e vi lá que eles estão com o mesmo problema. Inclusive tem vários proprietários reduzindo 50% da produção porque não têm mais condições de estocar”, relatou Pasini. O contexto internacional corrobora, por exemplo, a Argentina, que há alguns anos consumia 90 litros de vinho por pessoa ao ano, hoje registra consumo próximo a 15 litros. No Brasil, o consumo por habitante é de apenas 2,8 litros anuais, dos quais 90% são vinhos importados de variedades viníferas.
A Cooperativa São João não está sozinha nesse movimento. A Cooperativa Vinícola Garibaldi, uma das maiores do estado, também registra estoques acima da média. O presidente Oscar Ló confirmou que a cooperativa tem um projeto de controle de produtividade por área já implantado anteriormente, com classificação de uva e remuneração por qualidade. “Também estamos fazendo um trabalho de orientação para os sócios para controlar a produtividade do próximo ano. Não temos uma cartilha, mas temos uma orientação técnica de controle de produtividade e classificação até para não exagerarmos a produção”, informou.
A saída pelo mercado externo também está na pauta, mas ainda depende de políticas públicas que não saíram do papel. Em setembro de 2025, a Fecovinho articulou junto a Conab para criar uma subvenção federal para exportação de suco de uva, que permitiria escoar estoques excedentes e abrir novos mercados internacionais. A proposta envolvia também o combate à falsificação de rótulos no mercado interno e a implantação de preço mínimo para o suco. Nenhuma das três medidas foi implementada até agora. Enquanto isso, as exportações de suco concentrado caíram pela metade entre 2023 e 2025, com destaque para a queda nas vendas para os Estados Unidos, que saíram de 554 toneladas para apenas 5 toneladas no período.
O Portal A Vindima acompanha essa crise de estoque desde 2024, quando as primeiras sinalizações de desequilíbrio entre produção e consumo começaram a aparecer. A Cooperativa São João é a primeira a formalizar medidas restritivas para os associados, mas o problema é setorial. Outras cooperativas e vinícolas estão na mesma situação e podem seguir com comunicados semelhantes nos próximos meses.
Leia a nota completa:
Prezados associados,
Devido ao excesso de estoques de vinhos e sucos e a baixa expectativa de vendas para este ano e à crise que o mundo do vinho está passando, a Cooperativa se sente na obrigação de comunicar e de tomar umas medidas, quanto a produção de uvas para a próxima safra, afim de evitar problemas mais sérios no futuro, tanto no recebimento das uvas como na saúde financeira da Cooperativa.
Nesta próxima safra todas as uvas passarão a ter um limite de produção por área para evitar o excesso de uvas produzidas.
Também, será adotado Grau Mínimo para pagamento e para recebimento, uvas com um grau abaixo do mínimo estabelecido não serão recebidos caso haja muita produção e caso sejam recebidas, seu preço será a baixo do mínimo estabelecido pela Cooperativa.
Quanto a classificação, as Uvas Comuns somente terão a classificação de uvas boas e ruins, e a classificação para Uvas Viníferas será revista e reformulada.
O recebimento será feito com uma quantia máxima de 800 mil kg por dia no pico da safra, por isso não se aconselha a utilização de adubos nitrogenados, desta forma a uva terá mais qualidade e capacidade de não estragar rapidamente, permitindo uma colheita mais devagar.
Áreas novas por enquanto estão suspensas, como também o financiamento das mudas por parte da cooperativa.
Somente serão financiadas as mudas para reforma de vinhedos com variedades recomendadas pela Cooperativa.
Precisamos a compreensão dos sócios para este momento delicado por que passa a nossa viticultura.
OBS: Os técnicos da Cooperativa farão visitas para monitorar e orientar as adubações, podas e a maturação das uvas no momento da colheita.
Farroupilha, julho de 2026.
Valderiz Possa
Presidente
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