Vitivinicultura brasileira não está preparada para o clima extremo, alerta pesquisador da UFSM

Professor Gustavo Brunetto aponta falta de banco de dados e investimento em pesquisa como principais gargalos do setor
Vinhedo sob severo estresse hídrico

 

A semana que passou deixou um recado para quem produz uva no Sul do Brasil. A Emater-RS alertou que vinhedos na costa do Rio das Antas já registravam brotações antecipadas por causa das temperaturas acima do esperado para o inverno, enquanto a previsão para os dias seguintes indicava queda brusca, com possibilidade de geadas na Campanha, na Serra e nos Campos de Cima da Serra. Em Santa Catarina, o padrão é o mesmo, com calor fora de época seguido de massa fria com mínimas próximas de zero nas regiões produtoras de altitude. O problema não é novo. O que muda é a intensidade e a frequência.

Para o professor Gustavo Brunetto, coordenador do GEPACES da Universidade Federal de Santa Maria e pesquisador com décadas de experimentos em vitivinicultura, esse padrão de oscilações extremas não é mais uma exceção, é o novo normal. “Os eventos vão ficar mais extremos. A temperatura é muito alta, a precipitação muito intensa, em curto espaço de tempo, geada tardia. E nós vamos ter que nos preparar. Fizemos isso nas últimas décadas? Não”, afirma.

O diagnóstico de Brunetto começa nos dados. Há 20 anos, seu grupo de pesquisa observou que o fator que mais determina a produtividade na fruticultura e na vitivinicultura não é a poda, o sistema de condução ou a adubação, mas o clima. Essa constatação, que os dados das últimas décadas só confirmaram, ganha uma dimensão nova quando as variáveis climáticas passam a oscilar de forma cada vez mais imprevisível. As horas de frio estão diminuindo em regiões historicamente produtoras. A precipitação alterna entre anos de excesso e anos de seca severa. As temperaturas de verão batem recordes enquanto o inverno chega tarde ou quente demais. “Está alternando demais. Às vezes vai muito para os extremos”, diz o professor.

O custo dessa imprevisibilidade já aparece no campo e Brunetto estima que 30% dos vinhedos da Serra Gaúcha não têm cobertura vegetal nas entrelinhas. Num ano com excesso de precipitação como o atual, isso significa perda de solo, de matéria orgânica, de nutrientes e, no final, de rendimento. “Quem não tiver planta de cobertura vai perder solo orgânico e vai perder no tempo. Está perdendo dinheiro”, resume. Para além da cobertura, o pesquisador aponta que os eventos extremos exigirão investimentos cada vez maiores em tecnologia: sistemas de movimentação de ar para prevenir geadas tardias, coberturas contra granizo e até nebulização interna no dossel para reduzir o estresse por calor excessivo, prática que já é testada em pomares italianos após episódios com temperaturas próximas de 50 graus no campo.

Mas o ponto central da análise de Brunetto não é tecnológico, e sim científico. O país não tem banco de dados suficiente para modelar o que vem pela frente. Para a videira, o grupo tem dez anos de dados, mas isso é insuficiente para fazer projeções confiáveis sobre como a mudança climática vai afetar a produção, a composição do mosto e do vinho. “Para modelar, eu preciso de 15, 20 anos de dados. Então a primeira coisa que tem que fazer é criar banco de dados. Todo o sistema produtivo tem que criar banco de dados”, afirma. A modelagem que seu grupo realiza em parceria com climatologistas de Santa Maria já consegue projetar cenários de como o clima vai mudar nas próximas décadas, mas sem os dados de campo correspondentes, a projeção climática não se traduz em orientação prática para o produtor.

O problema não é só a falta de dados. “Não adianta gerar pesquisa, mandar um paper [publicação de artigo científico] internacional e aí não chegar ao técnico e ao produtor. O conhecimento tem que chegar ao sistema produtivo”, diz Brunetto. Essa crítica aponta para uma lacuna estrutural de falta investimento em pesquisa aplicada com horizonte de longo prazo, falta definição de prioridades sobre o que pesquisar, e falta um canal eficiente de transferência do conhecimento científico para quem toma decisões no campo. “Quem é que tem que ficar tateando, vendo o que funciona e o que não funciona, é a pesquisa. O produtor tem que ganhar dinheiro.”

A previsão para a próxima semana, com possibilidade de geadas em vinhedos que já começaram a brotar precocemente, é um exemplo do que Brunetto chama de detalhe do problema. Não é a geada em si que assusta, mas a combinação de brotação antecipada por calor fora de época seguida de queda brusca de temperatura, padrão que deve se repetir com mais frequência nos próximos anos. “Quem tiver banco de dados, quem tiver pesquisa, quem entender como o clima está afetando a fruticultura e a vitivinicultura e a partir disso modificar a prática de manejo, esse produtor, esse estado, esse país vai ficar no sistema produtivo. Quem não entender isso, infelizmente vai ter prejuízo.”

Os alertas emitidos por órgãos de monitoramento climático e extensão rural cumprem um papel importante na gestão de curto prazo, orientando o produtor sobre o que fazer na semana seguinte. O que a pesquisa aponta é que isso não é suficiente. Alertas respondem ao imediato. O que o setor vitivinícola brasileiro ainda não construiu é a base científica para responder ao que vem nas próximas décadas.

 

 

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