
por Leonardo Lopes e Evelin Queiroz
A cadeia produtiva da uva e do vinho da Serra Gaúcha deu um passo importante na construção do sistema regional antigranizo. A Sicredi Serrana confirmou que irá custear a implantação da estrutura inicial do projeto, considerada estratégica diante do aumento dos eventos climáticos extremos e das projeções de uma primavera mais chuvosa sob influência do El Niño.
O investimento previsto supera R$ 6 milhões na primeira etapa e poderá ultrapassar R$ 10 milhões caso novos municípios integrem o projeto. Atualmente, cerca de 15 prefeituras já aderiram formalmente à proposta, mas o sistema poderá alcançar aproximadamente 30 municípios da Serra.
Inspirado no modelo utilizado há décadas em Fraiburgo (SC), o sistema prevê a instalação de estações climáticas e geradores em solo que utilizam iodeto de prata para reduzir a formação de granizo antes que as pedras atinjam as lavouras.
A expectativa do setor é que a estrutura esteja pronta já para a próxima safra, considerada decisiva diante das previsões climáticas para o segundo semestre.
Segundo o diretor de Negócios da Sicredi Serrana, Odair Dalagasperina, os impactos do granizo ultrapassam as perdas diretas dentro das propriedades rurais e atingem toda a economia regional.
“O agricultor não tem duas safras no ano. Se não tem uva, não tem vinho e diminui o turismo. Toda uma cadeia deixa de girar”, afirmou.
Ele destaca que a mobilização começou ainda em 2020, após episódios severos de granizo atingirem milhares de propriedades rurais da Serra Gaúcha.
“A gente percebeu que não podia mais ser assim. Começamos a mobilizar lideranças, entidades e municípios para construir possibilidades. Não existia uma solução pronta”, disse.
Apesar da relevância do seguro agrícola, Dalagasperina avalia que apenas o seguro não resolve os impactos econômicos causados pelos eventos climáticos extremos.
“Por mais que sejamos uma instituição financeira que vende seguro, entendemos que esse não é o caminho”, afirmou.
O Consevitis-RS considera o projeto fundamental para reduzir riscos produtivos e dar maior estabilidade à vitivinicultura regional. Segundo o diretor executivo da entidade, Eduardo Piaia, o sistema também pode gerar impactos indiretos importantes, como redução dos custos de seguro agrícola.
“Santa Catarina já possui experiências onde as seguradoras praticam taxas menores em função da redução do risco climático. Isso também pode acontecer aqui”, afirmou.
Segundo Piaia, o aporte da Sicredi acelera uma discussão que vinha avançando lentamente entre municípios e governo estadual.
“O Sicredi fará o repasse dos recursos para aquisição e instalação dos equipamentos. Isso dá agilidade ao processo e permite que o sistema possa operar já nos próximos ciclos”, explicou.
Diferentemente de um financiamento tradicional, os recursos destinados pela cooperativa não precisarão ser devolvidos.
“Não é um financiamento reembolsável. É um aporte para implantação do sistema”, ressaltou.
A estrutura inicial prevê cerca de 130 unidades de proteção climática distribuídas entre os municípios participantes. O número ainda poderá ser ampliado conforme novas adesões ocorram. Até o momento, estão confirmadas as cidades de Alto Feliz, Antônio Prado, Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Coronel Pilar, Farroupilha, Feliz, Flores da Cunha, Monte Belo do Sul, Nova Pádua, Nova Roma do Sul, Pinto Bandeira, São Marcos, Santa Tereza e Vale Real.
Segundo Piaia, os próximos passos envolvem ajustes jurídicos, formalização dos convênios e organização dos municípios para garantir a manutenção permanente da rede.
A proposta em discussão prevê que as prefeituras assumam legalmente o compromisso de manutenção do sistema nos próximos anos, especialmente no custeio dos insumos utilizados nos equipamentos.
“A preocupação é garantir continuidade. Não adianta fazer o investimento inicial e depois não manter o sistema funcionando”, afirmou.
O modelo em construção também prevê participação do Fundo Vitivinícola do Rio Grande do Sul (Fundovitis), ligado à Secretaria da Agricultura do Estado, que deverá lançar edital para apoiar parte dos custos futuros de manutenção.
O projeto ganha ainda mais relevância em um momento de preocupação crescente do setor com os impactos climáticos sobre a próxima safra. Projeções meteorológicas já indicam possibilidade de primavera mais úmida e aumento do risco de granizo em função do El Niño, cenário que preocupa produtores, cooperativas e vinícolas da Serra Gaúcha.
Além da vitivinicultura, o sistema deverá beneficiar outras culturas agrícolas e também áreas urbanas atingidas frequentemente por tempestades severas.
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