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A possível alteração da denominação “vinho de mesa” voltou ao centro do debate da cadeia vitivinícola brasileira durante reunião da Câmara da Cadeia Produtiva de Viticultura, Vinhos e Derivados, realizada na última semana. O tema mobilizou representantes de vinícolas, cooperativas, entidades setoriais, Embrapa e lideranças do setor, expondo diferentes visões sobre identidade, mercado, consumo e posicionamento do vinho brasileiro diante das mudanças no perfil do consumidor.
A discussão surgiu a partir de uma proposta já debatida em outros encontros técnicos, relacionada à possibilidade de tornar facultativo o uso da expressão “vinho de mesa” nos rótulos. Atualmente, a legislação brasileira utiliza a nomenclatura para identificar vinhos elaborados majoritariamente com uvas americanas e híbridas, diferenciando-os dos vinhos finos produzidos com uvas vitis vinifera.
O presidente do Sindivinho de Santa Catarina, Everson Suzin, defendeu a manutenção da expressão e afirmou que o termo carrega um valor histórico e cultural construído ao longo de mais de um século.
“O vinho de mesa representa o vinho do dia a dia do brasileiro. É o vinho presente na mesa da família, no almoço de domingo, na celebração simples. Trocar essa nomenclatura agora significa ignorar décadas de construção cultural e o vínculo direto que milhões de brasileiros têm com o produto”, disse.
Suzin também argumentou que a denominação ajuda a preservar a identidade da produção nacional e protege milhares de pequenos produtores que dependem da categoria para manter suas propriedades e a renda das famílias.
“Alterar o nome é desvalorizar esse esforço e abrir caminho para que produtos importados ocupem esse espaço sem a mesma responsabilidade social”, declarou.
A fala encontrou apoio entre representantes que defendem a valorização do vinho elaborado com uvas americanas e híbridas como um patrimônio histórico da vitivinicultura brasileira. Parte dos participantes também destacou a importância da classificação para diferenciar características de produtos distintos dentro da cadeia do vinho.
Ao mesmo tempo, representantes de vinícolas e entidades ligadas à produção de vinhos de mesa relataram preocupação com o impacto negativo da expressão junto ao consumidor final.
A presidente da Associação Gaúcha de Vinicultores (Agavi) e sócia-proprietária da Vinícola Lovatel, Simone Lovatel, afirmou que a palavra “mesa” vem sendo associada de forma pejorativa pelo mercado, mesmo diante da evolução técnica e qualitativa dos produtos brasileiros.
“O que eu vivencio todos os dias é o consumidor dizendo que não bebe vinho de mesa porque entende que ele não tem qualidade. Isso acontece constantemente. E quando a pessoa prova, ela se surpreende”, relatou.
Segundo Simone, o preconceito em torno da nomenclatura acaba afetando diretamente a percepção do consumidor na gôndola.
“Na prática, a palavra mesa está sendo vista de forma muito negativa pelo consumidor. E isso vem crescendo”, afirmou.
O debate também trouxe reflexões sobre estratégia de mercado e posicionamento da produção nacional diante do avanço dos vinhos importados e das mudanças no comportamento do consumo de vinho no Brasil.
O chefe-geral da Embrapa Uva e Vinho, Adeliano Cargnin destacou que a discussão precisa ser tratada de forma ampla e estratégica, sem transformar o tema em uma disputa entre categorias.
“A percepção que existe hoje é de que a expressão vinho de mesa acaba sendo associada à baixa qualidade, mesmo que isso não corresponda mais à realidade atual”, ponderou.
Para produtores, o momento exige uma análise mais profunda sobre comunicação, identidade e valorização dos produtos nacionais.
Ao final da reunião, ficou encaminhada a criação de um grupo de trabalho para aprofundar o debate, avaliar impactos legais, comerciais e de comunicação, além de analisar referências internacionais e possibilidades futuras para o posicionamento da categoria no mercado brasileiro.
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