
A incorporação de inteligência artificial no campo começa a avançar também na viticultura brasileira. Um novo sistema automatizado de monitoramento de insetos em videiras entrou em fase de testes na Serra Gaúcha e pode representar uma mudança relevante na forma como o setor acompanha riscos fitossanitários, especialmente em um cenário de maior pressão por eficiência, rastreabilidade e resposta rápida a ameaças.
O equipamento foi instalado na cidade de Bento Gonçalves por técnicos da Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul e será avaliado ao longo de seis meses. A proposta é integrar tecnologia de captura de imagens, análise automatizada e envio de dados em tempo real para ampliar a capacidade de vigilância sobre pragas de interesse econômico e quarentenário.
Entre os principais alvos está a Lobesia botrana, conhecida como traça-da-uva, considerada uma das pragas mais destrutivas da viticultura mundial. Embora ainda não esteja presente no Brasil, o inseto é classificado como quarentenário, o que exige monitoramento constante para evitar sua entrada e disseminação no país.
A espécie ataca diretamente os cachos, favorece o desenvolvimento de doenças e pode comprometer produtividade e qualidade, além de gerar barreiras comerciais em mercados mais exigentes. Por isso, o sistema de prevenção é tratado como estratégico para a competitividade da vitivinicultura nacional.
Hoje, o monitoramento é feito majoritariamente por armadilhas convencionais distribuídas em áreas produtivas, que exigem inspeção periódica por técnicos. Esse modelo, embora eficiente, depende de mão de obra especializada, visitas frequentes ao campo e análise manual das amostras coletadas.
Com o uso da inteligência artificial, esse processo passa a ser contínuo e automatizado. O equipamento utiliza o mesmo princípio das armadilhas tradicionais, com feromônios que atraem os insetos, mas adiciona câmeras e um sistema de reconhecimento de imagens capaz de identificar espécies e gerar alertas em tempo real.
Na prática, isso reduz o intervalo entre a captura e a análise, permitindo respostas mais rápidas em caso de suspeita. Também amplia a capacidade de monitoramento sem aumentar proporcionalmente a necessidade de deslocamento de equipes, um ponto sensível em regiões com grande extensão produtiva.
A adoção desse tipo de tecnologia dialoga com uma realidade mais ampla da viticultura brasileira, que convive com diferentes níveis de tecnificação e desafios regionais. Embora o teste ocorra na Serra Gaúcha, o tema é transversal e interessa a produtores de diferentes polos, como Campanha Gaúcha, Serra Catarinense, Sudeste e Vale do São Francisco.
Isso porque o risco fitossanitário não se limita a uma região específica. Além de pragas quarentenárias, como a Lobesia botrana, a videira no Brasil já enfrenta pressão constante de insetos que impactam diretamente a produtividade e a qualidade da fruta.
Entre os principais estão a cochonilha-pérola-da-terra, considerada uma das mais severas por atacar o sistema radicular e comprometer a longevidade dos vinhedos, além de tripes, que causam deformações nos frutos, ácaros, que afetam o desenvolvimento vegetativo, e moscas-das-frutas, que comprometem a sanidade dos cachos.
O manejo dessas pragas exige monitoramento contínuo, escolha adequada de porta-enxertos, controle biológico e, quando necessário, intervenções químicas ou orgânicas. Nesse contexto, ferramentas que aumentem a precisão na detecção e no acompanhamento populacional tendem a ganhar espaço.
Ao permitir a geração de dados em tempo real, a inteligência artificial também abre caminho para uma viticultura mais orientada por informação, com decisões baseadas em evidências e maior previsibilidade no manejo. Para produtores e técnicos, isso pode significar redução de custos operacionais, uso mais racional de insumos e menor risco de perdas.

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