Mercado de espumantes cresce no Brasil em meio a retração global puxada pelo Champagne

Enquanto o consumo mundial de espumantes recua pela primeira vez desde 2020, o produto nacional avança na comercialização, mas sente o consumo esfriar nas gôndolas do varejo

 

O primeiro trimestre de 2026 confirma o espumante como uma das categorias mais resilientes do mercado brasileiro de vinhos, mesmo em meio a um cenário de crédito caro e consumo moderado. Mas o desempenho do produto nacional só ganha real dimensão quando colocado ao lado do que acontece no mercado mundial, onde o setor atravessa uma reacomodação que já dura alguns anos: depois de crescer de forma constante entre 2020 e 2023, o consumo global de espumantes recuou em 2024, alcançando 3,32 bilhões de garrafas, segundo o instituto de pesquisa IWSR. Para 2025, a Euromonitor International estima que o setor tenha movimentado US$ 54,67 bilhões em todo o mundo.

Por trás desses números agregados, há um mercado de comportamentos bastante distintos entre regiões produtoras. O caso mais emblemático é o Champagne. Depois de bater recorde histórico em 2022, com 325 milhões de garrafas vendidas no rescaldo da pandemia, a região francesa amarga o terceiro ano seguido de queda, fechando 2025 com 266 milhões de garrafas comercializadas, recuo de 2%. O faturamento sofreu ainda mais, caindo de € 6,5 bilhões para € 5,7 bilhões no período. Do outro lado do espectro está o Crémant, que bateu recorde de vendas em 2025, com quase 123 milhões de garrafas comercializadas em todo o mundo, alta de 7,5%. O Prosecco também segue em expansão, ainda que em ritmo mais lento que nos anos anteriores, somando 667 milhões de garrafas produzidas e avanço expressivo nas vendas para a França, justamente o mercado histórico do Champagne.

Esse movimento de heterogeneidade entre regiões produtoras se repete no segmento de espumantes sem álcool, hoje apontado como a fronteira de maior potencial de crescimento do setor. A Alemanha, principal mercado para o produto desalcoolizado, vendeu 22,3 milhões de garrafas de espumante sem álcool em 2025, alta de 12% e já quase 9% de participação no mercado alemão de espumantes. A consultoria americana Grand View Research projeta que o mercado global de vinho sem álcool chegue a US$ 3,78 bilhões até 2030, dos quais o espumante desalcoolizado deve responder por 60%.

No Brasil, o primeiro trimestre de 2026 trouxe um retrato igualmente cheio de nuances para o setor. Segundo levantamento da Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul, com dados do Sisdevin organizados por Leocir Bottega (Cnecoop/Fecovinho), a comercialização de espumantes no mercado interno somou 2.693.805 litros no trimestre, alta de 9,8% sobre igual período do ano anterior. O resultado acompanha o desempenho do conjunto de vinhos e espumantes no mesmo levantamento, que também cresceu em todas as categorias, do vinho de mesa ao moscatel.

Um panorama nacional mais amplo, produzido pela consultoria Ideal.Bi, ajuda a explicar os bastidores desse crescimento. O mercado brasileiro de vinhos e espumantes movimentou R$ 4,18 bilhões no trimestre, com recorde de 10,22 milhões de caixas de 9 litros comercializadas, alta de 12% em volume. Segundo o CEO da Ideal.Bi, Felipe Galtaroça, o segmento de espumantes nacionais cresceu 9% em volume no período, compensando a queda de 24% nos espumantes importados. A origem espanhola foi a mais penalizada, com recuo de 57% nas importações de espumante, um tombo bem mais acentuado do que a própria queda global do Cava, categoria que recuou 13% no mundo todo em 2025 e teve suas exportações reduzidas em 18,7%, conforme aponta o relatório da ProWein Düsseldorf.

Essa reacomodação nas origens de vinhos e espumantes que chegam ao Brasil também aparece na América do Sul como bloco fornecedor. O continente atingiu participação histórica nos embarques ao país, alcançando 65% do volume total, impulsionado pela consistência do Chile e pelo avanço de Argentina (alta de 16%) e Uruguai (expansão de 44%). O movimento ocorre em meio à expectativa em torno do Acordo de Livre Comércio entre União Europeia e Mercosul, ainda pendente de entrada em vigor plena.

Apesar do crescimento na comercialização, a Ideal.Bi chama atenção para um descasamento entre o ritmo de abastecimento das lojas e o consumo real no varejo alimentar. Enquanto a distribuição avançou em ritmo acelerado, o giro de espumantes nas gôndolas recuou 1,4% no trimestre, influenciado por um período climático mais úmido e com menos picos de calor em relação ao ano anterior. O consumo final de vinhos, por comparação, cresceu apenas 1,2% no mesmo intervalo.

Se mantida a proporção histórica em que o primeiro trimestre responde por 18% do volume anual, a Ideal.Bi projeta que o mercado brasileiro de espumantes deve fechar 2026 entre 4,3 milhões de caixas, em um cenário mais conservador de ajuste de estoques, e 4,7 milhões de caixas, caso o consumo acelere no segundo semestre. O comportamento das próximas safras e da demanda no varejo ao longo do ano deve confirmar qual desses cenários se concretiza.

 

 

 

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