A probabilidade de permanência do El Niño na Região Sul do Brasil até o início de 2027 é de 97% a 99%, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos. Para o período entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, a estimativa é de 63% de chance de o fenômeno atingir intensidade muito forte. Diante desse cenário, sete unidades da Embrapa, entre elas a Embrapa Uva e Vinho, elaboraram uma nota técnica com recomendações específicas para diferentes sistemas produtivos da região. Para a viticultura, o alerta é significativo.
O excesso de chuva esperado para o período não representa apenas um risco de encharcamento. Para os vinhedos, o problema começa ainda com chuvas acima da média durante o inverno podendo reduzir o acúmulo de frio necessário para a superação da dormência das videiras, causando brotação desuniforme, atraso fenológico e redução da fertilidade de gemas. Quando as chuvas coincidem com a floração, comprometem a polinização e o pegamento de frutos. E quando chegam próximas à colheita, reduzem o teor de açúcares, compostos fenólicos e precursores aromáticos, afetando diretamente o potencial enológico da uva.
A pressão fitossanitária é outro risco de alta prioridade. O aumento da umidade relativa do ar durante a primavera e o verão favorece doenças como míldio, antracnose, escoriose e podridões de cacho na videira. Em áreas com drenagem deficiente, períodos prolongados de saturação hídrica podem comprometer o sistema radicular. Próximo à colheita, a ocorrência de bagas rachadas e frutos em decomposição ampliam o risco fitossanitário e reduzem a qualidade da matéria-prima que chega às vinícolas.
Para o pesquisador Alex Mayer, da Embrapa Clima Temperado, a fruticultura está entre as atividades mais vulneráveis ao El Niño. “A produção de frutas é muito sensível. Além do encharcamento do solo, que pode comprometer o sistema radicular e levar à morte das plantas, também podem ocorrer perdas provocadas por ventos intensos, granizo e erosão, prejudicando pomares, estruturas de cultivo e a própria produtividade.”
A nota técnica da Embrapa não se limita a descrever os riscos. Ela traz recomendações práticas organizadas por tema, voltadas especificamente para a viticultura.
Para o manejo do solo e da drenagem, a Embrapa recomenda mapear locais sujeitos a encharcamento, enxurradas e erosão dentro dos vinhedos, corrigindo preventivamente canais de drenagem, saídas d’água, estradas internas e pontos de concentração de fluxo superficial. A cobertura vegetal das entrelinhas deve ser mantida, especialmente antes do período de maior precipitação. Em áreas declivosas, práticas conservacionistas são fundamentais para reduzir erosão e compactação.
Para a nutrição, a orientação é evitar adubações excessivas de nitrogênio, que favorecem o vigor vegetativo, aumentam o sombreamento e criam microclimas mais úmidos dentro do dossel. Também se recomenda evitar aplicações excessivas de potássio em vinhedos destinados à elaboração de vinhos, devido ao impacto sobre a composição do mosto, e não aplicar fertilizantes imediatamente antes de eventos de chuva intensa.
No manejo fitossanitário, a antecipação é a principal ferramenta. A Embrapa orienta verificar previamente a disponibilidade de insumos, equipamentos e mão de obra, ajustando os programas de manejo para cenários de maior pressão de doenças. A lavagem de fungicidas pela chuva pode comprometer a eficácia dos tratamentos, por isso a rotação de mecanismos de ação e a avaliação de reaplicações são recomendadas. Em cultivares suscetíveis às podridões de cacho, as aplicações antes do fechamento dos cachos são prioritárias, pois essa estrutura se torna de difícil acesso posteriormente.
Para o manejo do dossel, a nota recomenda realizar desbrota, desponte e desfolha para reduzir sombreamento, favorecer a aeração e acelerar a secagem dos cachos após eventos de chuva. Em cultivares com cachos compactos, o raleio deve ser realizado quando tecnicamente recomendado, retirando bagas e cachos com sintomas de doenças.
O planejamento da colheita também merece atenção especial. A Embrapa orienta intensificar o monitoramento da maturação dos frutos, escalonar a colheita priorizando talhões mais suscetíveis a podridões e, para vinhedos destinados ao processamento, alinhar a retirada da produção com a capacidade de recebimento das vinícolas. A nota também recomenda revisar coberturas de seguro agrícola e manter registros atualizados das operações e ocorrências climáticas.
O pesquisador José Reinaldo Moraes, da Embrapa Clima Temperado, resume a mensagem central do documento. “Embora o El Niño exija atenção, ele é um evento previsível e não é sinônimo de problema garantido, e sim de mudança de padrão de risco. Seus impactos podem ser reduzidos com planejamento antecipado, adoção de boas práticas agrícolas e acesso a informações técnicas qualificadas.”
O documento completo, com recomendações para outras culturas da Região Sul, está disponível para download aqui.
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