A vitivinicultura europeia está acelerando investimentos em tecnologia para enfrentar alguns dos principais desafios que hoje também preocupam produtores brasileiros, são eles: mudanças climáticas, escassez de mão de obra, aumento dos custos de produção e pressão por sustentabilidade.
Nos últimos meses, a Comissão Europeia destacou uma série de projetos de pesquisa que buscam modernizar o setor por meio da robotização, da agricultura de precisão e da rastreabilidade digital. As iniciativas fazem parte de uma estratégia mais ampla para preservar a competitividade de uma atividade que movimenta cerca de 130 bilhões de euros por ano na economia europeia e sustenta aproximadamente 3 milhões de empregos.
Os projetos, financiados com recursos da União Europeia, apostam em soluções que vão desde robôs autônomos para operações em vinhedos até tecnologias capazes de reduzir o uso de defensivos e ampliar a segurança das informações sobre origem e autenticidade dos vinhos.
Embora desenvolvidos para a realidade europeia, os avanços despertam interesse também em países produtores como o Brasil, que enfrenta desafios semelhantes relacionados ao clima, à disponibilidade de mão de obra especializada e à necessidade de aumentar a eficiência produtiva.
Robôs para trabalhar em áreas de difícil acesso
Um dos projetos em destaque é o SCORPION, desenvolvido para atuar em vinhedos localizados em encostas e terrenos íngremes, comuns em diversas regiões produtoras da Europa.
A tecnologia consiste em um robô autônomo capaz de se deslocar por áreas de difícil acesso sem depender de sinal GPS. O equipamento utiliza sistemas avançados de navegação e tração que mantêm as quatro rodas em contato permanente com o solo, aumentando a estabilidade e a segurança das operações.
A proposta busca reduzir a dependência de trabalho manual em áreas onde a mecanização tradicional encontra limitações, um cenário que também faz parte da realidade de diversas regiões vitivinícolas ao redor do mundo.
Luz UV como alternativa aos fungicidas
Além da automação, o projeto também avalia o uso de luz ultravioleta UVB para o controle de doenças fúngicas nos vinhedos.
Os pesquisadores identificaram que determinados fungos se tornam mais vulneráveis durante o período noturno. A aplicação controlada da luz poderia reduzir a necessidade de fungicidas em algumas situações, contribuindo para sistemas de produção mais sustentáveis e alinhados às exigências ambientais cada vez mais presentes no mercado internacional.
Embora a tecnologia ainda esteja em fase de desenvolvimento, ela é vista como uma possível ferramenta complementar ao manejo fitossanitário convencional.
Colheita seletiva feita por robôs
Outro projeto europeu, chamado BACCHUS, concentra esforços na automação da colheita. A iniciativa desenvolveu um sistema robótico capaz de identificar cachos maduros e realizar a colheita com precisão semelhante à humana. O equipamento combina uma plataforma móvel, braços robóticos, sensores e câmeras hiperespectrais capazes de analisar características das uvas diretamente no campo.
A tecnologia permite realizar uma colheita seletiva, recolhendo apenas os cachos que atingiram o ponto ideal de maturação. As uvas ainda imaturas permanecem na planta para serem colhidas posteriormente.
Segundo os pesquisadores, essa estratégia pode contribuir para maior uniformidade da matéria-prima e para a obtenção de vinhos com maior qualidade.
Rastreabilidade ganha importância
A digitalização também faz parte da transformação em curso. O projeto TRACEWINDU trabalha no desenvolvimento de sistemas que permitam acompanhar toda a trajetória do vinho, desde o vinhedo até o consumidor final.
A proposta envolve a criação de mecanismos digitais considerados seguros e imutáveis para registrar informações sobre origem, produção, transporte e comercialização dos produtos.
A rastreabilidade vem ganhando relevância em diversos mercados, especialmente entre consumidores que buscam maior transparência sobre procedência, autenticidade e práticas adotadas pelas empresas.
Tendências que podem influenciar a viticultura brasileira
A aposta europeia reforça uma tendência observada em diferentes regiões produtoras do mundo: a integração entre viticultura, automação, inteligência de dados e sustentabilidade.
No Brasil, onde eventos climáticos extremos têm impactado safras nos últimos anos, tecnologias voltadas à agricultura de precisão, monitoramento de vinhedos e otimização de recursos também vêm ganhando espaço.
Embora muitas das soluções ainda estejam em fase experimental, os projetos indicam caminhos que podem influenciar o futuro da produção de uvas e vinhos, especialmente em um cenário de maior pressão por eficiência, redução de custos e adaptação às mudanças climáticas.
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