Vinícola aposta em hotel e condomínio para ampliar enoturismo em SC

Projeto da Vinícola Grando une vinho, hospedagem e moradia em estratégia voltada à experiência e permanência do turista

 

A expansão do enoturismo brasileiro começa a avançar para modelos mais amplos de experiência, permanência e conexão com o território. Em Água Doce, no Meio-Oeste de Santa Catarina, a Vinícola Grando prepara um projeto que une vinícola, hotelaria e condomínio residencial dentro de um mesmo complexo turístico voltado ao vinho.

A iniciativa surge em uma região ainda distante dos principais polos tradicionais do enoturismo nacional e reforça um movimento crescente dentro da cadeia produtiva da uva e do vinho: transformar a visita à vinícola em uma experiência de longa permanência, capaz de integrar hospedagem, gastronomia, eventos e lifestyle ligados ao universo do vinho.

Fundada em 1998, a vinícola nasceu inicialmente a partir de estudos de terroir realizados em parceria com instituições como Embrapa e Epagri, após o proprietário identificar potencial vitícola em uma área até então marcada principalmente pela pecuária e extração de madeira. Mais de 100 castas foram testadas ao longo dos anos até a consolidação do atual portfólio.

Hoje, a vinícola produz cerca de 140 mil garrafas por ano, todas com uvas próprias cultivadas acima de 1.300 metros de altitude, característica que se tornou um dos diferenciais da marca.

Segundo o CEO, Guilherme Grando, desde o início o projeto foi pensado além da produção de vinhos. “O objetivo sempre foi criar algo diferente para a região. Desde o começo existia a ideia de integrar a vinícola com turismo, hotelaria e experiências ligadas ao vinho”, afirma.

O projeto ganhou força nos últimos anos após sociedade firmada com incorporadoras paulistas e agora entra em fase de implantação. A expectativa é iniciar as obras do condomínio ainda neste ano, enquanto o hotel deve avançar nas próximas etapas de licenciamento.

O condomínio terá cerca de 200 lotes e será implantado ao redor do lago da propriedade, enquanto o hotel terá perfil boutique, voltado ao público que busca experiências ligadas ao vinho, natureza e gastronomia.

A estratégia acompanha uma tendência observada em destinos internacionais consolidados, como Mendoza, Toscana e Vale do Douro, onde a permanência dentro das propriedades vitivinícolas passou a representar parte importante do modelo de negócios das vinícolas.

Na avaliação da empresa, a distância dos grandes centros acabou acelerando a necessidade de investir em hospedagem própria.

“Hoje muitas pessoas visitam a vinícola e precisam retornar para cidades vizinhas. O hotel nasce justamente para permitir que o visitante permaneça mais tempo vivendo a experiência”, explica Guilherme Grando.

Além da futura estrutura hoteleira, a vinícola já vem ampliando sua operação turística com degustações harmonizadas, eventos gastronômicos, experiências exclusivas e expansão da estrutura receptiva.

Entre as novidades estão degustações verticais do vinho ícone da casa, harmonizações especiais e um novo salão de eventos com capacidade para até 180 pessoas, voltado a casamentos, eventos corporativos e experiências enogastronômicas.

Segundo Jamerson Hoffmann, responsável pelas áreas comercial e de enoturismo da vinícola, a proposta atual vai além da simples visitação.

“A palavra do momento é experiência. Mas a nossa busca agora é pelo encantamento. Queremos que o visitante saia daqui levando a história do vinho, entendendo o terroir e criando conexão com a marca”, afirma.

Hoje, cerca de 50% das vendas da vinícola já são realizadas diretamente por meio do enoturismo, percentual que o grupo pretende elevar para 90% nos próximos anos. Para isso, a Vinícola Grando vem ampliando o calendário de experiências e eventos próprios, com agendas mensais que incluem happy hours, encontros corporativos, programações em datas especiais e degustações verticais de safras antigas, começando pelo rótulo ícone Innominabile.

A estratégia acompanha um movimento cada vez mais presente no setor vitivinícola brasileiro, no qual o enoturismo deixa de ser apenas ferramenta de relacionamento e passa a ocupar papel central na rentabilidade das vinícolas, reduzindo a dependência dos canais tradicionais de distribuição.

Segundo Guilherme Grando, vender diretamente ao consumidor permite reduzir impactos do chamado “Custo Brasil”, além de fortalecer fidelização e percepção de valor.

“Dentro da vinícola conseguimos explicar o vinho, mostrar o processo, apresentar o terroir e criar vínculo com o consumidor. Isso gera uma relação muito mais forte com a marca”, destaca.

Outro ponto que impulsiona o projeto é o crescimento do fluxo turístico de inverno em Santa Catarina, especialmente de visitantes vindos do Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo.

A vinícola já percebe aumento de turistas de fora da região durante os meses mais frios, movimento que deve ganhar força com a ampliação da infraestrutura turística.

O empreendimento também reforça um novo posicionamento do enoturismo brasileiro, cada vez mais conectado à ideia de destino completo, e não apenas de visita técnica ou degustação.

Além da hotelaria, o projeto prevê novas experiências ligadas ao território, paisagem, gastronomia e permanência no vinhedo — conceito que vem ganhando espaço em regiões vitivinícolas internacionais e começa a avançar no Brasil.

Segundo os responsáveis pela vinícola, o investimento estimado apenas na implantação do condomínio deve chegar a cerca de R$ 50 milhões.

 

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